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A mostrar mensagens de Maio, 2012

Anatomias estranhas

Pela face escarlate de anatomias estranhas
Contemplava, estranhamente, algures no aduaneiro,
Justificação para tantas façanhas!
E em vão dei meu último suspiro

Ela ria aquelas belas narrativas que lhe contava,
Por não entender o sentido ela se desinteressava....
Enquanto isso, narrei novamente o nosso mar;
Aí ela se pronunciara: «Fizeste-me pensar!»
Paro e passo, embriagado, me relembrava.

Nada daquilo existiu na forma que todos imaginamos
O pôr-do-sol era um escuro desinteressante
E toda aquela chama amorosa que sonhamos
Não era senão repugnante.

Nada que tu és, sou-o; este barco de vela está distante
Afasta coração e razão. Não lembra nem a lembrar
Ser-se assim tão repugnante,
Mesmo se o não achar.


Álvaro Machado - 19:57 - 31-05-2012

Vasta casa assombrada

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Entrei na vasta casa assombrada
E via ao fundo do corredor
Entre a névoa da fechadura cerrada
Algum terror.

De súbito, imaginei, algum mal
Nas escadarias que ligavam ao pátio,
Escutei a melodia infernal!

Subterrânea mansão de lívidos esqueletos!
Marinheiros, militares, bispos; dispostos no obscuro átrio,
E um tanto de folhetos!

Estava só e abandonado,
Em choro que não transbordava,
E nunca relembrado,
Me recordava.

Velhos tempos que nós vivemos sentados a uma esquina qualquer!
Passeamos horas e horas rodeados num cheiro provocador
E de um momento para outro senti-me verdadeiro sonhador
Como outro qualquer!

Tu eras, pelas alfândegas de Lisboa, a paixoneta de todo marinheiro
Levantavas voo a águias, ilustravas tão bem a pesca!
Ó bela do meu infeliz rotineiro,
O teu ar me refresca!

E ainda estipula a ciência exactidões,
Mas não passam de falsas previsões.
Sabê-lo-ás… este azul não segue,
Falsas visões. Apenas se ergue,
Às certas tentações…

Álvaro Machado - 23:13 - 30-05-2012

Antepassado do mar

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Sofre, estático, antepassado invulgar,
Pela estranha atmosfera me via erguer
Ao pé do mar.

Estava escuro e mal se ouvia as ondas
onduladas soltarem grandes gemidos
Aos que se julgavam perdidos.

E. vacilante, pela costa recortada
Ria numa longa e lenta risada
Que me fazia desaparecer

No farol defronte da praia já se faziam rondas
Os estáticos e inúteis bradavam
Os que por nunca ali passavam

Fui dado como desaparecido
Pela tempestade que ia sofrer
Mas que nunca havia aparecido,
Por desaparecer.

Álvaro Machado - 22:47 - 29-05-2012

Saudade do sonho

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Falta estimo, vontade de confraternizar
Faltam versos, palavras, para vivenciar.
Meu estimulo perdera-se na lua isolada;
Meu tempo foi vão na alma desolada.

Todos vivem na plenitude das riquezas do Oriente
Abrem lojas, cafés, pavimentos queimados!
«Quem dera à vontade fazer esquecer pecados!»

E o tempo, meu estimado, faz-me ausente...
Desarticula-se-me os ritmos... as baladas!
E já em esquecimento dou breves risadas!

Mas já não falta nada. Nem a própria vontade,
Se falta? Prolonga a chama, quase sufoca,
O horizonte na linha que desfoca.

E tudo que nós sonhamos verdadeiramente,
Não foi senão o que nunca falamos;
Já aproxima descontinuadamente,
O que nunca sonhamos.

Que saudade de tempos que não são tempos
Do calor da noite fresca; do frio da manhã clara;
Sei que são breves e alongados sofrimentos
De uma alma que nunca pensara...

Álvaro Machado - 22:30 -28-05-2012

Interior de vontades incertas

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Neste interior não há senão vontades incertas,
Brisas que passam e arrepiam
Na escuridão do quarto prolongado.

E na queda do desespero julgo novas descobertas
Abre-se-me janelas e percorro os rios do Sado
Mas nunca sou relembrado.

Cheguei ao desespero da alma, ao suicídio do corpo,
Minhas vontades ja se não faziam,
Já se não sentiam...

Cafés desertados pelo dia santo; só a mulher feia, analfabeta,
Ainda alegra a romaria deserta.
Ela que é triste alegremente, faladora e jamais vai calar
Apenas por não saber interiorizar

Não raciocina aptidões! Nem tão pouco sabe o termo civilização!
Busca a egoísta mulher um prodígio amor impossível
Que dure para sempre no interior do seu coração
Mas ei-la! Semblante empolado e inacessível!

Ela não trabalha. Vive em suores alheios
Percorre naquele olhar visões e balbucia
Intrigas dos que passam e dos que vêm,
Quase alucinara no que via

Ela não morre. Erguera-se no jazigo
Nunca a vi... Mas sinto vê-la
Em território inimigo.
Mas nunca ver perdê-la.

Já finda... Partiu energia e v…

Esqueço

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Dizem esquece. Eu esqueço,
Sem realmente saber
Faço esquecer

Procuro as fraquezas, as anomalias
Tu que és vento, que és a grande verdade,
Tu me contrarias...

Não entendo e apuro saber esta contrariedade!
Elevo aos infinito o que não recordo,
E enfraqueço!

Mas não liguem ao que vos conto
Não e não! Não leiam, não entendam!
Só eu é que os afronto!
Eles que me temam!

Álvaro Machado - 14:57 - 25-05-2012

Desejo daquele cheiro

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Foi breve o desejo daquele cheiro
Enquanto entrava pela porta da natureza,
E por momentos esquecia todo o dinheiro
Em troca daquela pureza!

Ia, no caminho prolongado,
Encontrar-me com o velho senhor
Escondido entre ramos... isolado,
Triste sem dor.

Falámos varias horas da vida, da morte, do infinito,
Tudo que não se falara. E por momentos sorriu
Sua face incolor reluziu
Pelo que havia dito.

E ali ficámos... Sós e isolados em grandes conversas
Chorando, rindo, resmungando,
E por vezes às desavenças,
Lá íamos concordando...

A natureza e o velho eram um belo espectáculo de contemplar!
Falavam um com o outro ao som do vento...
Não consegui parar de pensar,
Porquê aquele sofrimento?

No fundo se era feliz à chuva do desejo, ao calor do prazer!
Ele sabia-o. Sei que sim...
Tinha consciência de saber viver!

Já na noite que caíra, soube, que ele sem mim,
Era feliz. Esquecera a alma humana pelo prazer,
E com a natureza viver!

Álvaro Machado - 21:04 - 24-05-2012

Tudo se desmorenou

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Tudo foi, tudo se desmoronou,
Incidiu sobre a humanidade
Forte luz que passou
Em vaga obscuridade.

Os que vejo deixam-me cego,
Na falta de força para lutar.
Assim, elevo o meu ego,
Pela falta de acreditar

E, ainda com ideais, elevam-se
Novos muros, vontades novas,
Agitam-se multidões; pintam-se,
Berrantes tons em alcovas

Mas tudo isto vale a pena?
Não somos senão homens e mulheres,
Simples carnes iluminadas em mentes
E nada vale a pena...Álvaro Machado - 19:44 - 23-05-2012

Luz matinal

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Vem à janela da plena cidade a matinal luz solar,
Breve campo triste e vago sem o recordar.
Os barulhos param e torna-se sórdido por sua vez
Trabalhos e esforços e suor camponês

Brilha, assim, pela electricidade
Toda a volúpia; toda a virtude.
E o céu rejuvenesce plenitude,
Perfurando luminosidade

E à brisa do que não é mar se movem
Largas correrias, breves momentos,
Passados por um só homem
Sofredor de sofrimentos

Ele que chora lágrimas secas - impenetráveis,
desinteressantes e não-sentidas...
Esquece. E insiste,
Futuro de que não existe.

Sobe a temperatura: enche-se a esplanada
Vêm as belas altivas ao calor,
Abrasador.

Tanto que doí a sensação desincorporada
Que solto um breve suspiro sem saber
Por raio escrever...

Álvaro Machado - 14:55 - 23-05-2012

Autêntico sem autenticidade

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Tornaram-me tão autêntico que perdia a identidade
E sabe-lo-ás porquê.
Deixei a intensidade... abracei a autenticidade
De ser sem saber bem porquê.

O mundo que vejo não é senão o que não quero ver,
Viver ou sentir. Apenas choro a vontade do mundo
Sem que ele verdadeiramente exista; sinto-me aperceber
Não valer a pena viver.

E na jornada chuvosa do meu interior
Caiu em direcção ao fundo,
De alguém superior.

O vento move, o céu precipita, a cantiga fantasia
E tudo é, tudo foi, tudo será, em vão,
Em demasia...


Álvaro Machado - 22:15 - 22-05-2012

Cativo que já não é mansão

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Doce cativo rodeado na orquídea à beira mar
Me brilha a vontade; me lança de novo
À vontade de ter futuro... à vontade de imaginar
Um presente sem ser novo

Fortaleza do palácio invadido,
Esbelta a grandiosidade das plantas;
Mas todo o seu cheiro e esplendor fica esquecido,
Ao relento de outras tantas.

Solta-se poeira no ar. Solta-se um breve suspiro
E todo o calor absorve,
O que já não respiro.

Os passeios esboçados mexem,
A praça deserta...
Há hora que enchem,
Meu coração desperta...

E no meio de todo o clima: nascem orquídeas na velha fortaleza,
Esquecida pelos que não sentem
Toda sua beleza

E só no ultimo suspiro se lembram
A meio caminho em direcção
Aquilo que já não é mansão...

Álvaro Machado - 19:44 - 22-05-2012

Viva! Viva! Viva!

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Viva! Viva! Viva! Já não sei quem sou!
Como o tempo passou,
Já não sei por onde vou.

Corro, entristeço, esqueço, a grande infância
Mas não choro. Nunca se solta a lágrima
Da coisa que só se conhece à distância
E nunca se vive senão em falso clima

Falo mas não oiço de verdade o que me dizem
Por não conseguir ser assim... Nunca chorei
O que nunca tive nem o que nunca terei

E assim sou... Perdi a dor pela própria dor,
Cheguei ao fundo sem saber o meu destino.
Pareça o que parecer nunca serei digno
Da verdadeira dor.

Álvaro Machado - 19:50 - 21-05-2012

Sem formas

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Não se transcreve o que se sente
Não se idealiza um ideal
Apenas de forma usual
Se mente.

Andam pela rua altivos inconstantes,
Mexem a sua fortuna e fazem transparecer
Reluzentes diamantes
Sem querer.

Mas tudo isto é nada. Perco-me a escrever
Minha alma não tem alguém
Tem no seu parecer
O ninguém.


Álvaro Machado - 12:41 - 20-05-2012

Não existo

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Tu que sabes que não existo,
Porque continuas a me falar?
Saberás porque insisto
Deixa-me a pensar.

Penso e chego mesmo a julgar
Que verdadeiramente estava
A pensar.

Mas logo de seguida pensava
Que só fora impressão
Não tinha expressão.

Por isso te nego versos
Estrofes, ideias, alegrias
Por falta de as ter - momentos controversos -
Acabo por ter manias...

E não existo
Por isto.

Álvaro Machado - 15:28 - 19-05-2012

Ergo-me da poltrona

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São agora nove da manhã e ergo-me da poltrona
Velha, modesta, luxuosa. E viajo não no meu coração
Mas no meu pensamento derivado da razão
Encontrei o vão...

Fascinar? Para fascinar basta passear ao relento
Esfriar junto dum lugar onde passe o vento
E se oiça a peculiaridade na natureza
Esperando, sempre, a surpresa...

Assim chego a este eterno no fundo do céu
E vi entra a nuvem e o Sol a intriga do distanciamento
Padecia náusea e dor e lamento,
Quando ela lhe tirou o véu,
Esqueci o céu.

Na terra ouvia ao fundo a água escorrer
Sem haver água. E escorria na fonte
O seu belo e delicado mover
Enquanto atravessava a ponte

Nunca me senti tão só como aquele momento:
Senti ver tudo em sintonia, menos eu, sem conhecimento
Das sábias bíblias que uns lêem na sua poltrona
Sem sentirem o sentimento.

De repente, sem querer
Começa a chover.
Correm, lentos, alguns transeuntes
Da chuva que sem parar humedece os montes
Não consegui prever.

Álvaro Machado - 12:31 - 19-05-2012

Sorriso entra a praça

Entrava para a sala de jantar
Sem que desse conta
E via longe à porta
Um sorriso se rasgar

Mas a imagem enfraquecia quando terminava
O saboroso jantar num autêntico sabor que combinava
Com a longa face esbranquiçada
E a sua voz arqueada

Cessava a névoa dentro do restaurante
Não dei conta. Até que veio algo em minha direcção
Assim como um raio que me atingiu a visão
Chegando em andar triunfante

Não sei se loira ou morena, talvez nenhuma;
Acabara-se o jantar e cessara o violino
Em toda a praça. Ainda digno
Sentia o cheiro do tabaco que fuma

Defronte os comerciantes não vendiam
As grandes peripécias... e sentiam
A clientela fugir para fora
Daquela bela cidade d'outrora

Ainda assim a velha Maria estendia
As cores do seu país do seu coração
Hasteando a bandeira enquanto vendia
A fruta à nação!

E eu assim não sou,
O vento passou.
Vou com ele para lugar incerto
Em busca de destino decerto...

Álvaro Machado - 21:19 - 17-05-2012

Três da manhã

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Fui o único a despertar,
À sombra da madrugada.
E o barulho fizera-se desertar
Na penumbra da janela fechada

No meu triste sobretudo lanço um vasto olhar,
Pela cidade fora. Não há viva alma acordada
Só inda estão os que têm falta dela - os pobres - a chorar
A doença indesejada!

Estou pálido e tonto num devaneio físico
Há dias que ando assim,
Radiante e tísico
Há espera de algo sem fim...

E já em queda, vacilante;
Fui o único a afugentar
Em passo rápido e desconcertante
Sem que me visse despertar...

Álvaro Machado - 03:35 - 16-05-2012

Destacado para o exílio

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Correram águas de Portugal...
Correram ventos frios da terra...
Meu coração provençal...
Lembrara a rainha de Inglaterra...

Ela que de bela tinha tudo
Com uma prontidão e arte
Ripostou num aparte
Deixando o sonho mudo

Assim... A água separou-se do vento,
Nascendo e morrendo a cultura portuguesa;
E nada alcança o actual pressentimento
Na lembrança que lembrei à Condessa

«Ó bela condessa, correcta rainha, minha majestade!
«É-lo só para mim... Partilhar-me-ás com alguém mais?
«Paz minha alma ao ver que duras para além da eternidade
«Sim tu... Rainha dos demais!»

Mas de repente, espero que me entendais
Fui forçado ao exílio; procurei ideais melhorados
Fugi. Por entre os muros quebrados,
Aos inúteis regimes ditatoriais

Progride, em passo rápido, o valor da infelicidade
Onde só há tempo para belas moradias
E já lá vão os tempos das intimas romarias
Onde eu ia em busca de felicidade

Passa o tempo... Meu amigo Quartermain...
Partira o barco a vapor sem nós,
Deixando a bagagem a sós;
Longe de Bombain.

Álvaro Machado - 19…

Palavra que doí só de ouvir

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Ia, pelo campo adentro, bela rola a cantar
Assemelhado-se a um belo cântaro partido
Que fez o povo da terra delirar
Com um breve gemido

O campo quente, fértil e coberto de belas flores
Passava tristes dias que mais pareciam horrores
Até nas margens do rio se via o distante sol
Acompanhando a melodia do rouxinol

«E quem será este rouxinol?» Um isolado
Na triste multidão,
Que havia privado
Em troca duma vasta solidão

Verde... Verde campo cheio de natureza
Sentia tristeza só de ouvir
A palavra que dói ao invés da pureza
Criou, coitado, o jazigo d'mártir

Partiu a vasta multidão de rouxinóis
E o campo fazia lembrar um ventre
Conversando à rola e ao rouxinol que, cobertos em lençóis
Fizeram acreditar ao campo ficarem juntos para sempre

E inda agora enquanto estava a escrever
Encontrei olhares de alguém
Belo ainda... Que fez transparecer
Que sou o ninguém.

Aqueles olhos, ardentes
Fizeram Descartes
Pensar que a razão
Advinha do coração
Mas não sabia ele, confundido estou certo
Que o amor não é decerto
Mais que uma bre…

Sóis em vida

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Sentado sobre a mesa, descontraído
Circulava em grande tremor
Dizendo estar destruído
Ao vento... ao calor...

Suspirei à vida pela vegetação
Não vivo, sobrevivo
Esforçando a imaginação
Ao sonho altivo...

São rouxinóis que prolongam cânticos
São árvores que mudam a postura ao vento
São sóis que brilham semânticos
Em busca da razão para este tormento!

Mas vós que me ouvis, percebeis o horizonte
Chamar pelo meu nome. E não vou
Pois detesto que gente me afronte
Pelo que não sou!


Álvaro Machado - 19:17 - 13-05-2012

Falsa saudação

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Não me conhecem e dizem "boa tarde"
Assim como antigamente uns bradavam
(Falsos) por vossa majestade
Com quem nunca falavam.

Agora dizem-me tal qual estas palavras
Mudam apenas sílabas e outras metáforas
Mas a mensagem no fundo continua a ser
Hipocrisia a valer

Não me conhecem e dizem "boa noite"
Faço de conta. Não respondo
E continuo a pensar à noite
O que não vou supondo

Voltando ao antigamente, eles só diziam
Palavras pela boca fora
Ignóbeis que mentiam
Em má hora.


Álvaro Machado - 19:30 - 12-05-2012


Arrogância intelectual

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Um intelectual julga ser
Único verdadeiro inspirador
De paisagens que diz viver
Sem verdadeiramente as conhecer

Intitula-se de grande sonhador
Pela razão fúnebre e estéril
De não ser mais do que um servil
Pensador.

E chega a ser ganância
Achar que tem talento
E parte numa fragrância
Coberta de abatimento

Somos assim... Nós intelectuais...
Porque não somos, nem nunca fomos,
Homens e mulheres normais.

Evidenciamos - e a ciência sabe-o - que nossos átomos
Reluzem no torpor da tília, exaltam o alabastro
À navegação com o nosso Portugal ao mastro!

Álvaro Machado - 14:09 - 12-05-2012

Vácuo horário

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Todos dormem, sem pensar, inocentes!
Ladrão, assassino, artista, doutor,
Tudo se desmaterializa em noites
De tanta dor.

Os que dormem, enfim!
Sabem que a vida tem fim
No cais em porto inexistente,
Cheirar-se-ia mar d'antigamente.

Não sabeis, pois,
Decretos de Jerusalém
Nem nada mais sois,
Do que almas do além.

De repente, o vento muda a direcção
E esqueço-me de dormir
Pregado à concorrência de sentir
Algo na penumbra, na escuridão
Já não te sinto minha oração...

São horas infernais, minutos de vácuo
Neste ser corporal
Estranho pelo lado do mal
Tornara-me fátuo...

Sabereis, para quem não dorme,
Contemplar a rua de noite
Toda ela disforme
Pela sombra do açoite.

Não, vocês nada sabem disto,
Dizem-se sabedores de belas revistas,
Que no fundo só dão nas vistas
E nada sabem sobre isto!

Ele dorme, a meu lado; ela dorme lá ao fundo
Num canto que não existe, esquecida
Triste e desvanecida
Pelo impasse profundo

Cortinados que arrefecem
Ao final do dia
E pela manhã esquecem
Corajosa cobard…

Entre um diálogo

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Estou preso a um quarto
Desprendido de paredes, distanciado
Na natureza que havia sonhado

Cobri-me, esfriado, num manto
Que vida! Ó desconsolo
Perdido num canto...

E vou pela rua fora em dignas figuras
Eles riem. Não sabem sentir,
Neste século em que tudo está para vir

Na mármore de edifícios desbotados
Nas frias e tristes ruas
Cruzava-me com raros sobre-dotados

A um, perguntei-lhe, se havia sentido no mundo
Respondeu-me «que viver é morrer»
Pois «cego é aquele que não quer ver»

Começara a chover, no edifício fazia calor
Fiquei à conversa com um de tantos
Um tal sonhador

A sua voz, enfraquecida,
Acabara de ser esquecida
Cambaleada de rastos

O sonhador acendeu o cachimbo e filosofou:
«Deus existe senhor?»
Dito isto. Ele me tocou.

Não soube responder
Mas senti aquela dor
Porém, pela noite fora me fizera esquecer...

Fel passo, que dou, pela margem
Que é tão curto, tão sonoro
Casa inútil onde moro
Em longínqua paisagem!

Álvaro Machado - 20:10 -11-05-2012

Angústia de viver

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Não quer parecer ser
Mudança  na acção climatérica
Não quer parecer viver
Numa náusea histérica.

Barco que habito entre ilhas,
Costura sedas impenetráveis
Porém, o mar inda acha penetráveis,
Falhas.

E dá tamanha angústia estar entre
Rodeado por...
Erro d'ventre,
Certeza de dor...

Álvaro Machado - 18:48 - 10-05-2012

Escrito ao luar

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Para ti escrevo ao luar,
Falando em ocasiões de dor.
Não, não vou desertar,
Meu amor.

Desaparece outrem, venho eu próprio,
Sim... estou sóbrio,
No contente leito
Do meu jeito.

Mas é por alguém como você
Cá o mundo resiste!
E por alguém como eu - à sua mercê;
Nunca desiste!


Álvaro Machado - 19:00 - 06-05-2012

Obscuro Domingo

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Vida que nada vales,
Dia que nada és,
Domingo de males,
Tu o és.

Espero que compreendas,
O que te digo entre metáforas,
Abandonas-te em nome de velhas lendas,
Novas diáforas.

Dia que não vivo
É no meu ser,
Algo sem acontecer.
Se vivo!

Não somos, não existimos
Somos catástrofes em progressão
Diferentes masoquismos!
De volta ao apagão...


Alberto de Régio - 15:39 - 06-05-2012

Floresta alheia

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Névoa floresta alheia,
Cheia de cheiros e sensações,
Causando esquisitas impressões,
Na lagoa de Medeia.

Formosas plantas em sóis amarelados
Choravam, alegremente, a orquídea
Despedaçada sem rédea
Pelas raízes encurraladas.

O seu camarim interior sonhou o teatro d'vida
Imparcial à floresta,
Numa longa ida,
E nada lhe resta...

E as silvas, solitárias, riam
Daquilo que viam
Seu ego em demasia,
Deslocavas-as à fantasia.

Álvaro Machado - 22:13 - 04-05-2012

A jornada no café

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Durante a jornada no café
Debate-se sem certezas,
A origem da fé.

A mais velha, a Maria,
Começa a narrar,
A sua noite a rezar.

E vira-se das avessas
Esta ignóbil a comungar,
Com um Deus em que acreditaria...

Rezava, trémula, o Destino de seus filhos
Tudo o resto era opressão,
De feliz sensação.

O povo na rua ia de cabisbaixo
Uns falavam entre si d'um rastilho
Em timbre baixo.

Tanta loucura dos não loucos
Alguns quase roucos
Gritavam pela vida, pelos seus,
Ignoto Deus...

Álvaro Machado - 21:18 - 04-05-2012

Donzela

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Ouve que eu não sei
Levanta-te e vem,
Comigo ao além.

Sente que eu não sinto,
Apenas me lembrei.
Deste interior... Meu Jacinto!

Vê-me. Esquece-me.
Nada mereço
Pela manhã desapareço,

E ainda me vêm cantar
Sílabas sem rimar
Só por ti!

Mas eu não ouvi!
Meu amor, minha tragédia,
Não sou senão comédia...

Tudo é nada, e eu sou-o
Lembra-te da tua voz firme
Quando lancei um riso irónico,
Tu troças-te da graceta:
«Eu rir-me?»
Dizias superior num tom supersónico!

Hoje a brisa acalmou...
Pois minha alma pronunciou,
O fim da sua vida corporal.
E o meu timbre vacilou:
«Adeus, triste informal,
Que foste tudo de mal!»

Álvaro Machado - 19-48 - 03-05-2012

Bato à porta

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Bato à porta. Não entro.
Apesar de precipitado a entrar,
O gelo das veias impede o sangue de circular,
E não entro.

Convivem na margem a chover
Filósofos e poetas de bem parecer
«A metafísica é devaneio de Zeus»
Dialogava, Platão e Pessoa, aos seus

Impulsiono-me para a janela. Não abro.
E medito num ermo de dores,
Em direcção oposta a Cântabro
Imagens de grandes amores.

Mas neste presento vivo o sonho antigo
De forma turbulenta. E o grande major,
Levou sobre nos a melhor.

Em sequência! Vi ricos sem abrigo,
Implorando um amigo,
Que os escutasse.
Sem que a fome os maltratasse.

Fito o telhado. Não olho.
E transparece bela a floresta,
Que é única visão que me resta!

Cai, leve, o folho,
Quase ambíguo à catástrofe
No interior recolho
Esta disforme estrofe...

Ó breve sonolência,
Recordas-me a memória; dás-me o tédio,
Inacabado pela essência
D'um breve episódio.

Aproximo a mão ao ventre. É falso.
De pressa me levam; eu lentamente;
Sou empurrado para o cadafalso
Desaparecendo eternamente!

Álvaro Machado - 15:32 - 01-05-2…

Triste campo alegre

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Só de pensar, tristemente, no campo alegre
Que fora outrora... Mas agora caiu em tentação,
E os pobres contagiados pela febre,
Deixam-se levar no cheiro da vegetação!

Dois deles, no meio de tantos, iam verdes,
Mais verdes que o áspero campo cercado
Pela infinidade voluptuosa de febris redes!
Mas enfim... É sensação d'acercado.

Que pensamento! Rouco, transeunte, hipócrita
E desabafo para longe desta órbita!
De repente, a população, assistindo ao espectáculo,
Desiste. Cede ao finito obstáculo!

O momento que não esperamos, esperamo-lo toda a vida.
Acercamo-nos dele sem o sentir perto de nós
Mas sentimo-lo na doçura da sua voz...
Perto, longo, é vida...

Álvaro Machado - 19:47 - 30-04-2012