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A mostrar mensagens de Setembro, 2012

Outra dimensão

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O que será de vós noutro mundo que não este?
Se o corpo vos abandonar o que sereis vós?
Nada. Sereis uma impossibilidade.

A incongruência do vosso cepticismo é assim:
Para sentir-se vivo é preciso ver e tocar;
Para ser-se sábio é preciso só ver com o corpo.

Não sejais assim, servos do real! Outra dimensão
Vos espera à chegada das apoplexias...
Não torneis o vosso tempo cá tão inútil!

Mas que adiante falar-vos, criaturas inventadas?
Destino para vós é troco dos pobres acreditados!
Esse impossível que, na chegada do arrependimento,
Possível demais é!

Ninguém ouve falar em ninguém; o concreto é intocável...
As ciências não prosperam porque é ficção vossa dizeis...
As estrelas do espaço mais longe que a vida é surreal...
E esse abstracto dos malucos somente é vaiado...
Álvaro Machado - 20:54 - 30-09-2012

Cemitério

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Que caia, sobre este cadáver,
Todas as desgraças do surrealismo.
Que seja transtornado seu cismo
Só de o haver…

E não seja mais eu mesmo aqui!
Os remorsos tomam-se-me diariamente
E estaticamente perplexo penso inquietamente
No que sou e por que ando aqui!

Estava doentio da noite passada. Que enleio…
As quatros baladas, dolorosas como o enoitecer,
Cobriam este rosto escondido sobre o seio
Da tal figura nobre que quis conhecer…

Obscuro monótono da janela deste cemitério…
Caminham outras razões para além
Deste arrependimento, que é meu mistério,
Onde sou mistério de ninguém…

Levar-me-ás em que direcção,
Destino guia deste coração?
Que será, afinal, das cinzas
Quando eu deixar de ser?

(Encerro este rascunho ao acaso!)

Álvaro Machado – 13:57 – 30-09-2012

Oração de ateu

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Desespero enquanto rezo à noite o dia de amanhã
Nas orações peço mais um dia igual para viver
Repleto de cansaço na insignificante manhã
Rezo para não-viver

Estendo-me ao comprido de cabeça erguida
Lívido do que é sonhar o divino de alma não-conseguida.
E o corpo treme, a dor continua e jaz no fim finito
O dom de sonhar ao divino que não-acredito.

Cristãos, levantai-vos. Judeus, destronai-vos. Ateus...
Religião fruto de mentes perversas o que sóis vós?
Não sei que sóis! E porque há crença em Deus?

Há em mim um sentimento ateu que não-pratico;
Há um grito de corpo e de alma enfático...
Espero que tu, Deus, te ergas sobre nós,

E leves estas almas para longe do que é mundo!
Tanto do que não-és existe por aí fora e, no fundo,
Isso não passa de sonhos humanos. Oh David,
Desce sobre esta névoa-finita sem fim...

Álvaro Machado - 19:22 - 29-09-2012

Dia de comércio

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Acerca-se desta aldeia a luz que ilumina
A face dos comerciantes enquanto vendem
Restos do que é porcelana e barro...

Está cheia a praça. Dão-se gritos em vão.
Eles querem ouvir a sua voz ao fundo
Por alcançar, ou tentar, que seja alcance.

E tu, comerciante sem alegria?
Gritas pelo quê? E por quem?
(Nem sequer pestaneja, é mudo...)

Lufada de ar espontaneamente...
Luz que ilumina as faces, menos a sua...
Verso acercado deste homem desconhecido!

Tentou, inda agora, vender meio dúzia de paus
E os compradores, duas mulheres, acenam um não.
De novo, volta a seu mundo surreal e pensativo.

Que será esse período de reflexão seu?
Seus olhos focam o chão fragmentado
E a mão fixa sobre o seu queixo cansado
Pensam nesse tempo o que lhe aconteceu...

De vez em quando lá aparece um comprador
Que deixa de o ser no momento em que vê
Esse comerciante sem alegria ser o vendedor
(E que nele próprio não se vê)

O céu é só escuro, agora. A praça acerca-se de trovão.
E os vendedores, comerciantes digo, e os compradores,
Retiram-se …

Camponês

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Trabalha na terra, camponês honesto,
O futuro de todos e de tudo o resto.
Brada aos deuses por luz e chuva
Mas não queiras tempestade turva.

Sê feliz junto de outros camponeses;
Sê humilde e Deus te guardará
Esse campo que mais ninguém terá
(Teu, será mil vezes)

As mãos com que trabalhas transpiram
Mais do que tu próprio pensas.
Essas tuas mãos tornaram
Verdadeiras as tuas crenças.

E não corrompas esse espírito humilde,
Camponês de Portugal, e sê transparente…
(Deixá-los lá, de quem não é humilde)
Tu, camponês bem-intencionado e boa gente,
Levantarás Portugal da ruína!

Mas não sejas ou queiras ser intelectual.
Nesse campo não há alegria nem cores.
Apenas perdias o futuro e ganharias o ritual
Dessas desvanecidas dores!

Crê no que te digo! Sê o que quero que sejas!
Mesmo não ouvindo a minha voz!
Espero sinceramente, camponês, que estejas,
Na luta por nós!

Álvaro Machado – 21:13 – 28-09-2012

Desespero de companhia

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Estar sozinho nesta tarde sinistra
Querer apenas conviver isolado
E ver longinquamente esta sociedade
Com quem me cruzo ocasionalmente.

Passar, entre estradas, entre personalidades,
Olhar trajes despercebidamente…
Moedas de ouro estalejar à mesa, ao balcão,
No momento em que está vazio…

 Viver entregues à sorte da vida
Esquecendo, nesses breves instantes,
Sermos dependentes da vida para viver.

Escrever isto apenas por querer estar sozinho
Para todo o lado a que me sujeite, sem olhos falantes
E esperar a sorte sem que ninguém me observe.

Álvaro Machado -20:56 – 28-09-2012

A caixa da memória

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Guarda só em ti mesma a caixa da memória.
E quando vires o trágico segundo depois
Abre-a num ápice. Serás a razão de vitória
E sozinha serás nós os dois.

Recordarás os breves instantes da mente. (sente)
Percorrerás as histórias, verídicas ou não,
Deste meu Portugal, desta minha nação,
Que todos os dias mente.

Leva as novas só por ti e ninguém mais!
Deixa-los ir na multidão. És superior!
Vai rápido que o tempo esgota meus ais;
Apressa-te para meu interior…

Sozinha, à luz das velas, chorarás sem fim.
Reis de fronteira, castelos de pontes,
Povos insontes…

Sozinha, nessa vasta multidão,
Erguer-te-ás a meu coração
Mas não a mim.

E leva essa caixa da memória fora daqui.
Leva-a porque me deixa saudoso…
Leva-a para um lado esplendoroso
Que não seja aqui.
E com ela também levarás a minha alma.
Que é cristalina e pura como nunca verás.
Mas não me leves a mim, por não ter calma,
A calma que tu sempre terás.

Álvaro Machado – 20:45 – 28-09-2012

Dia. Noite.

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O dia tem contornos que a noite desconhece.
A luz destes dias ilumina a alma e purifica-a.
Em nós, que comandados somos, essa luz repete-se,
E brilha dentro do nosso coração que a esquece.

As sombras deixam de as ser; o espírito escurecido também.
O que há pouco não faríamos, agora fazemo-lo ávidos.
Assim, esse lado nosso, negro seria, agora vale um desdém
E somos todos ouvidos.

Eu sei isto e digo isto certo de que está certo dizê-lo.
Como é tão certo que há pouco vi um deambulante,
Mais à frente uma louca e agora mesmo um vagabundo.
Esse dia de contornos é feito à luz brilhante...

Ser dia é contemplar beleza desde que amanhece.
Ouvem-se pássaros mudar a rota, árvores a quebrar
Pelo vento forte que se faz sentir enquanto está forte.
E tudo isto num ápice de audição, nada mais.

Depois com ela, vem a outra: olhar.
Fitar o céu e sua cor, ver o estado de tempo,
Contemplar a simplicidade no seu todo...
Infindável forma de visão imaginar!

Passada esta chega o sabor insosso e incolor
Das mágoas, dos desejos, dos…

Falhanço eterno

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Quero escrever tantas obras, penso em tantas...
Tenho tanto fel e discordância e falho sempre.
Mas porquê, destino, penso eu coisas destas
Se sei que falho sempre?

Tenho em mim saudações bem presentes de frontes
Desconhecidas fazem anos a fio. Porque me mentes?
Nem quero acreditar nesta mentira, que é verdade.
E ela passa para além da eternidade.

Falho na minha vida redondamente. Perco este barqueiro,
Que certamente levaria consigo aqueles dotes de marinheiro,
Navegador de mares agitados, homem com real destreza,
Desaparece na névoa noite cheio de pureza.

Era corsário. Inda o vejo ao longo da costa.
Coitado, preso eternamente aos mares.
Mas é feliz. Faz aquilo que gosta.
As marés são dele e ele das marés.

Assim como ele são os peixes do alto-mar
Mergulhados sobre águas profundas....
Faça luz ou escureça, são oriundas,
Deste e daquilo e doutro mar...

E como são felizes! Como acham pureza!
Cada bracejar seu é um toque mágico
Como a leveza de toque da princesa.
E meu fim o que será senão trágico?

Falho eternam…

Povo...

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Povo meu que chegas
Diz-me em que crês
E porque me negas
Aquilo que vês…

Meu povo sem sorte,
Onde me levam tuas graças…
Ao invés das minhas desgraças
Me levam a minha morte…

Toca o sino, foge uma luz fulgente
Do alto deste céu inexistente!
E isto que canto para convosco, povo,
São momentos de quando era novo…

Álvaro Machado - 19:15 - 26-09-2012

Mea Culpa

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Será que um dia irei crescer
E ser eu mesmo noutro espaço?
Quererei eu voltar a viver,
Nesse dia baço?

Nos meus dias cansativos
Enaltece-me a maneira de questionar
Estados de contemplação diversivos
E outros espaços, que não este, imaginar

Mas tudo é vácuo doloroso.
Fogem-me por entre as mãos
Esses espaços preenchidos de ilusão
Onde o futuro seria grandioso

Grandioso demais talvez seria
Eu ser como nunca quereria.
E viesse Deus dos céus, santos das águas,
Para limpar esta mente e suas mágoas!

Mas não. É-lhe difícil ser assim.
Talvez nem queira sê-lo. Não sei…
Por mais que imagine um fim
Não sei o que nele serei…

Ordem do dia: diabo aparece.
E encanta por entre este dia
Recorrendo a fábulas, talvez, alumia
Este dia que se desvanece…

E quero ser tanta coisa, ó alma cruel!
E não sou nada, nem tu és nada!
Quanto do que faço é erro
Neste poema que narro…

Não valho nada; sou apenas vazio.
Entende-te comigo, nau presa ao mar…
Eu, como tu, sou mero vazio
E vazio navego até naufragar!

Será que esse dia está a chegar?
Será tu…

Povo perseguido

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Pugnar até à exaustão,
Reerguer-se novas bandeiras
Partir à conquista de fronteiras
E erguer uma nação.

Momentos de voga das classes médias…
Economia próspera, os melhores dias,
Fruto do povo e da sua dedicação
Virão dias breves e breves desaparecerão.

Povo culto, povo comerciante, povo patriótico
Pela pátria enfática que deles não era.
Foram perseguidos e torturados pela pátria fera
Que esqueceu seu Destino heróico.

Famílias separadas pelos campos de concentração…
Chaminés cinzentas transpirando calor humano…
Doenças manifestas destroçando o coração…
Choro e lágrimas em vão…

O que não vê esta humanidade, homem?
Por que razão disputa ouro e ostentação
Se no fundo só vê escombros? Ó homem,
Por que razão é tudo uma tentação?...

Álvaro Machado – 18:17 – 25-09-2012

Chuva a toda à hora

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Chove, chove e chove lá de fora
Um barulho que daqui é imperceptível
Tudo se molha a esta frágil hora
Onde sonho inconcebível

E penso nesta amálgama paradoxal
Interior ao meu consciente e sobreposto
Ao comum do meu rosto…

Temo esta nuvem de lá de fora…
Cheias de vida vão, as gotas, antes de despenhar
Contra o frio chão em que me vejo sonhar
Horas e horas e horas de outrora…

Sobreposto ao comum, nascido paradoxal,
Inflado desta matéria humana doente
Não mais tenho que esperar de quem não sente.

Álvaro Machado – 18:00 – 25-09-2012

Arrependimento

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O arrependimento surge-nos depois da morte.
Porque enquanto somos vida, cheios dela ou não,
Vivemo-la inconstantes, ébrios sem razão,
Esperando que o fingimento se note.

Só somos verdadeiramente humildes
Quando frágeis passamos horas repugnantes.
Homem, sê humilde. Homem, vê-te como dantes,
Humilde em hora de Hades.

Pois, quando esse arcanjo sobre ti descer,
Serás mais quem um simples ser.
Serás como que não sejas ninguém
E verás arrogância desse desdém.

Arrepender-nos-emos no juízo final.
Até lá, gostando de aqui estar ou não-estar,
Viveremos contrariados num sono profundo
E ninguém irá despertar…

Nem que vá ao fim do mundo!
Que seja eu louco ou não louco!
Passe eu por funerais humildes, ó Deus!
Morra eu por essa humildade fingida!
Seja, finja, minta ou não-sinta, que me arrependa!

Álvaro Machado – 18:21 – 24-09-2012

Simples dia

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Quando era simples menino
Ia um tempo calmo, submisso,
E mais não recordo esse tempo
(Rapaz, insonte, divino)

Humedece-se-me os dias,
as noites, as coisas em que cresci.
Esse tempo esvai-se à luz onde nasci
(Grande relâmpago a entenebrecer)

Oh… Os campos da minha velha cidade…
O que são agora, passada eternidade?
Pó dos que passam, tenebrosos,
Aos dias vagos e gloriosos

Vejo-os ainda: o mendigo ali atravessar,
Um corredor mais branco que as nuvens
Caído de joelhos, esperando o cessar
Deste dia moderno por onde vens…

E se vens, desgraça anónima,
Vem de uma vez só. Alcança-nos…
E que tudo seja estrada próxima…
(Eu e tu, meninos…)

Álvaro Machado – 17:56 – 24-09-2012

Horas chuvosas

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Chove águas frias dentro de mim.
Escorre pelos canos um barulho ensurdecedor
Do que resta deste dia de dor

Chove torrencialmente nas estradas
Que imagino às horas passadas
Nesta solidão sem fim

Chove de mais, criatura do além…
Saltos altos em abafada correria,
Corre na direcção que queria
Fugir desta chuva de ninguém

E jaz nesta noite minhas lágrimas,
Perdidas a um canto de rua escura…
Canto do céu envolto de rimas
Cai dos céus a doenças sem cura!...

Álvaro Machado – 21:53 – 23-09-2012

Altiva vulgar

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Longe de ti, o que seria?
Próximo, o que quero ser?
Se nem existes, afinal que queria
Eu próprio te dizer?

Mulher de milhares de tantas outras!
Foste uma cólera, foste um prazer,
Se eu te contar ao amanhecer
Contar-te-ei que foste como noutras

Achada no ermo insaciável
Tu foste o mais vulgar possível
Como outras, caminhas altiva,
Por cima dos teus próprios pés! Álvaro Machado - 19:53 - 22-09-2012

Estado de contemplação

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Contemplo esta igreja derrubada.
Contemplo tal esse misticismo.
E deixo minha alma entrar num cismo,
Onde sou culto e vida acabada.

Paro, entro e sento-me perto de Deus.
Esse tal velhaco protector dos seus.
Mas quem sou eu para aqui estar?
Sinistra força de além que me faz rezar…

Cai sobre o altar, cheia de pó, uma luz.
Atravessa corpo de Deus e sua cruz
E atravessa-me como um raio tenebroso,
Sussurrando ser Deus todo-poderoso…

Se existes, David, porque somos ateus?
Porque há cepticismo?
Se és mesmo tu, profeta do misticismo,
Porque estás longe dos teus?

Abandonas os mais fracos também…
Vê aquela santa mulher, além,
Mais cadáver que propriamente ela,
Essa mulher que se usa da baixela
E presta culto à alma de ninguém!...

Álvaro Machado - 14:22 - 22-09-2012

Pensar querer ser impossível

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Pensar querer ser impossível…
Ser-se dessas formas todas…
Ver e ser e morrer-se mundo…

Alcançar o que é incansável…
Alcançar-se miragens sem fundo…
Espiritismo de pocahontas…

Voltar a ser passado neste futuro presente.
Escrever supostas paixões.
Inteiramente ser quem sente,
Com vários corações.

E voltar, de novo, a amar,
Voltando à nau e ao mar,
E mergulhar nesta tela
Impossível barco de vela!...

Álvaro Machado - 14:10 - 22-09-2012

Exaustão

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Penso até à exaustão
Porque sou Destino,
Questiono sem precisão,
Porque ainda sou menino

Dotado rapaz da velha aldeia…
Em mim como em paisagem
Há imprecisão, há miragem,
E toda a gente é feia…

Acordo pela manhã sorridente
(Este mundo olha-me e sorri!)
E passando por ti eu corri
Por ser assim tão insonte

Deito fel às tuas mãos,
Ó olhar que nunca cansas!
Sonho-te derrubado por chãos
 Que nunca alcanças!

Álvaro Machado - 14:00 - 22-09-2012

Vinte horas

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Vinte horas de dor, vinte horas passam cansadas.
Escurece o azul céu e, de repente, vem névoa
Sobre as nossas casas confundidas.

Jardim destroçado quando estou a contemplar...
Vácuo pássaro que voa...
E só é vista desfocada do meu olhar...

Aparadas flores pelas mãos do jardineiro,
(Belas flores molhadas pelo dilúvio!)
Ainda quentes do manilúvio.

Mas dá-se uma amálgama: estagna o ponteiro.
Rotinas são quebras inesperadas na indústria
E só vejo um manto, que é do carcereiro,
Passar sobre esta mão de Áustria.

Velho país duradouro de velho continente.
Sob o céu alaranjado fito, transeunte,
Nesta hora cansada, o austríaco misticismo...

E vem rainha, rei também, príncipes encantados
Com crucifixos ao peito, infiéis desacreditados!
E passa a hora sobre este meu cismo...

Álvaro Machado – 21:45 – 20-09-2012

Chegado o train

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Decido partir à luz das velas. Acendo o cachimbo.
Calmamente, pego na mala de viagem e no casaco sujo.
Precipito-me para fora, apressado já, quase que fujo
E abro portas a meu próprio sonho, que é cair no limbo.

Horas passam dentro desta inconstante decadência.
Ora vêm silenciosos repiques cantando à pátria,
Ora vêm bruscos ocidentais repugnando essa pátria
E apenas dão horas em dias de excelência.

E vem el-rei, ressuscitado de sonho, a encarnar
Sangrentas batalhas travadas de Sul a Norte...
Nem discursa na sua poltrona, apenas o vejo acenar
Como forma de reconhecer sua sorte...

Pio IV também... Tem-me vindo à lembrança ultimamente...
Cristãos sabedores do regime papal sabem perfeitamente
O que é ser-se mera perfídia aos santos Domingos
E fitar o altar, símbolo de sacrifícios, inutilmente.

Corações duros acham que matar saudades
Leva-os à outra dimensão do perdão.
Mas o que é afinal ser saudoso do coração
Quando tudo que se sente são contrariedades?

Chega o train. Entro sem vontade de entrar
Lá dentro v…

Corpo lasso

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Estou lasso do próprio corpo. Desapareço.
Jardim de infância, ali defronte, brilha de intensidade,
E as crianças brincam cheias de alegria e felicidade.
No meu interior, escureço.

Pobre do que é resto aos outros olhos, que nada valem...
Inda assim, dentro deste sonho, entro dentro daquela inocência,
Pois, viver entregue a outrem é realmente ter consciência
De somente viver e ser arrastado para além.

Náuseas atravessam-me agora... Caio no jaspe frio...
Falhado do que sou, não sei se choro ou se rio...
Contemplo apenas. E levo deste mundo memórias
Desta tarde sonhada de infâncias

Meu corpo triste abandona minha alma vazia.
Sociedade indaga apenas a sua inércia.
Saberão esses trajes, unicamente,
Ser-se sonho, inocentemente?

Álvaro Machado -21:13 - 18-09-2012

Veredictum

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Está longe, longe de mais, no infinito espaço,
Restos do que de mim foi, insensata lágrima…
Porque cantar-te é satisfação de rima
Quando o fundo é baço?

Estar no mundo, não estar, não querer estar.
Ter compaixão solar, ter compaixão estrelar
E ser um vácuo nostálgico d’um poço infinito
Esperando sentença do veredicto

Porque te distancias do mundo real?
Caminhas enseada abaixo, em alto mar,
Vida para além da que julgas encontrar
E só verás oceano surreal!

Invocas enleio nos aposentos
E por estares longe, sozinho,
Hás-de pedir por carinho
E sofrer só isolamentos.

Poço infinito, fel de não chorar…
Que será contemplar miragem?
Ó ávido homem procura, nunca hás-de encontrar,
Este mundo é só paisagem…

Álvaro Machado – 20:20 – 17-09-2012

Desencontros

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Não sei o que sou.
Será que serei,
O que imaginei
E já não imaginou?

Abandonado a morrer...
Quis eu ser alguém?
Somente estou a escorrer
Alma de ninguém.

Canto - forma abstracta!
Pensar ser tudo isto
Achar não-ser de Cristo
E da sua forma exacta,

Escutar o que não pertence
(E esse tal já pertenceu?)
Ó nostálgico e dócil céu
Minha dor te pertence!

Sei, porventura,
Já não ser o que serás
Alma e fel de pouca dura
Tu em mim tudo serás...

Álvaro Machado - 20:30 - 16-09-201

Riscado

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Homem que vê tudo além órfão
Acha-se perdido, barca silenciosa,
Mar de onda que ergue tufão
E vem água cobrir seu coração.

Mas ele nada vê, insolvente enfático,
Devedor de sua própria alma tempestuosa
Poeta, de mil maneiras possíveis viaja-se Báltico
E vem ardor sobre a ode, esperando-lhe canção…

Ah! Chove. Oiço chuviscos no sol, lá fora.
Onda de mar dentro de mim está sem claridade…
Afoga-se-me mau estar d’outrora….
Chove toda a solidão do mundo e sua infelicidade!

Álvaro Machado – 17:16 – 16-09-2012

Atónita Ode

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Vem sobre mim, canção e mestria escutada nas igrejas,
Vem, vai e retorna novamente, ó composição composta
Por notas dos píncaros mais altos que tu própria harpejas
Ó melodia perigosa que tanto de mim gosta!

Vem por cima das coisas e calca-me e esmaga-me e destrona-me
Pois sou eu, ou tu, quem sabe? Se somos ou se não seremos?
Longe da minha alma, perto do meu coração, aproxima-te e mostra-me,
Ó vaga música complexa cheia de ermos!

Que frenética forma alucinante de ver, ansiar, sentir e não sei mais
Ou será mais para além de saber que é mais e atravessa o Cais
Que este pensamento inquieto de mim, e só de mim,
Ou será inquietação tanta sem fim?

Invoco-te, melodia sangrenta, composição lúgubre, ode sem poesia…
Tu és o que não serás e nunca foste o que queres ser…
Chega-te ao ouvido. Enche óperas do que queres parecer…
Tu, ode sem magia, és o que há de maior hipocrisia!

E que revolta, e que corpo lasso, e que alma descontrolada!
Que serei eu também? Sou um fracasso eterno ao relento…
E porque escrevo e crí…

Escrita feminina

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Ela escreve, a coitada mulher na janela do quarto,
Sua tragédia que descortinada será durante a noite
Onde o vento ordena que a escreve se afoite
Durante o pesado sonho no quarto.

Ela emociona folhas que passam ao relento...
Seu ar de superior agita o próprio semblante
Superiorizando-se até à exaustão, mulher doma o vento,
E as cores do arco-íris multiplicam seu ar arrogante

Passam tudo pela sua demente e lúcida consciência:
Enseada que enche e ultrapassa o nível do mar;
Mascarra sorridente mancha seu olhar,
Borratando o que nela é elegância.

Envolve-se numa tragédia clássica; Seu barco perto irá naufragar
Ou será erro meu pensar que esta coisa feminina existe de verdade?
Só sei que ela continua a remar até à proximidade
Uma noite precoce chega para se destronar

E estarei a pensar em quê? E de que forma? Morreu na escrita,
Pobre mulher desencantada d'um Destino cruel que não lhe sorriu.
Sua tragédia descortinada foi, seu corpo da terra imergiu
Pobre santa, pobre coitadita!...

Álvaro Machado - 16:49 …

Sabedoria da vida

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Como de vida sei tão pouco,
Ou mesmo nada dela
Vivo-a com um sem à-vontade
Que é o viver como louco.

Mendigos, extravagantes sábios,
São os que de mim se aproximam.
Restantes são água que escorre em rios.

Mas neste céptico cinismo
Escorre a água dos inertes
E o que prevalece é mestres
Que desconfiam do ateísmo.

Ninguém encara a cena, o acto de viver.
Tudo é nada nesta gente que gere riquezas
Tudo é feito de eufemismos e de princesas
E ninguém sabe o que é ser!

Olho o céu e divago na noite estrelada!
Fazes-me tanto pensar Ignoto Deus!
Rezo-te parábolas que são uma fachada!
E ninguém sou eu, sou alguém?

Cai sobre mim a descrença de nada acreditar...
Sou um céptico que não acredita no que vê.
Sou um metafísico que imagina o que crê,
Estar a sonhar...

Álvaro Machado - 22:29 - 14-09-2012

Sobrevoar humanidade

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Finalmente ela voa, ave de mil desejos
E faz com que todos espantem...
Suas asas aos olhos encantem
Os que por ali vão fora, em cortejos.

Toca o requiem pessoano na cave
Peculiar e elegante melodia
Faz voar sem direcção a ave
Enquanto a noite é dia

Seu bico juvenil, seu tom de silêncio
Fita campos, moradias, almas transparecer
E a tarde minga com o entardecer.

Violinos estremecem na orquestra incompleta!
Passos vagueiam pelas ruas com um silêncio
Absorto humano de alma incerta...

E que produz sobre mim esta visão?
Vê-la sobrevoar-me confunde o que é pensar...
Aquela elegância em bater asas e tudo alcançar
Faz pensar que o homem tem de ter imaginação
Mais tarde o impossível voltará a se aproximar
E o concreto será apenas uma aproximação.

Álvaro Machado – 21:53 – 14-09-2012

Último verso

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Durante todo o caminho
Falei tão pouco que esqueço
Estas coisas que se chamam de laços,
Coisas do mesmo sangue, coisas genéticas...

Até antes de me fazer ao caminho
Via o futuro num presente tremido
Quando falamos de ti, saudosa saudade,
As coisas eram outras coisas

Havia no meio de palavras sentimentos
tão sentidos, tão humildes, tão próprios...
Que hoje em dia são vistos como palavreado
no meio de sentimentos palavras não-sentidas...

E eu traço todo o caminho na minha cabeça...
Complicadas brigas no meio da chuva,
Altivos gritos de antigas cruzadas destemidas,
Mortes honradas ao espírito santo.

Mas agora, agora que é feito desta ideia?
Perdida no mar num oceano seco...
E porque tanto se escrevem coisas que não são lidas?
Naufrágio do próprio sentimento de artista...

Inda assim não finda o que não é consolável
E escrevo a morte das minhas palavras no verso seguinte!
Ah! Esplendor esplêndido de te querer dizer que a morte me espera!
Adeus... Adeus... Adeus... Ó trovador, ó dramaturgo, ó homem de ninguém...

Á…

Escrever-te

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Vim para cá tão triste como a água que escorre,
E em mim só há devaneios e cansaços.
Vim para te dizer, desconhecido espírito, que perdi os laços
E tudo em mim é matéria que morre.

Tenho tantas saudades de todas as nossas conversas
Naquela mesa rústica que mais parecia medieval
Tanto discutíamos no rugido vendaval
E as conversas iam bem dispersas...

Continuo a escrever a carta, que é a maneira mais infeliz
Para cantar-te, sombra com luz, a minha amargura...
Tantas vezes sonhei a triste doença que não tinha cura
Para me tornar um homem feliz!

Quero dizer tanta coisa em tão pouco tempo. Que hei-de dizer?
Lá fora escorre a água em sangue morto, o céu está avermelhado...
Por isso, o que te direi eu às portas do sonho sagrado?
Cantar-te versos? Escrever apenas? Estou tão perto de morrer!

Empregada de mesa, agita a batina e serve a clientela!
E ela, sim aquela mulher, vai carregada de pedidos,
Uns querem um café frio, outros batidos...
Eu apenas quero uma vela,

Pois está perto de ela acender
Lume, chama, quei…

Homem que morrerá

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O homem morrerá
Nunca, talvez, quererá
Porém, ele próprio saberá
Que um dia morrerá

Esse dia solene e impróprio
Em que o homem vive até morrer
Esse dia insólito e pouco sóbrio
Em que ele vê tudo desaparecer

A crueldade, todavia, reinará
Sem tentativa de derrubamentos
Ordens serão acobardadas pela manhã
E Deus será a preze dos maiores agradecimentos

E vocês, homens todos, verão
Hipocrisias, suspeitas de bondades,
E logo vocês saberão
Ser este o mundo de contrariedades!

Álvaro Machado - 18:55 - 11-09-2012

Um dia de uma manhã brumosa

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Um dia de uma manhã brumosa
Descia com uma grande insatisfação
Quando se deu uma chuvada tempestuosa
Pelo meio de uma grande multidão

Fiquei todo molhado, o meu fato encharcou…
Sobre nós, com estrondo, o céu baço desmoronava.
De repente a multidão envolta estava,
E o temporal passou…

Os candeeiros públicos eram ferros quebrados;
O cimento do solo estava requintado por fileiras d’água.
Continuava a chovar apesar do temporal passar; E eu cheio de mágoa,
Pela rua fora caminhava como os embriagados.

Aglomerados de gente concentravam-se junto da cobertura
Numa proximidade entre a cidade fusca e o campo aberto
E as nuvens eram tantas que o fim do temporal parecia incerto,
À hora que passava, intensificava e indagava sem cura…

Lágrimas escutavam-se como uma gota caída no chão tristemente…
Memórias alastravam-se na rua como última esperança de vida…
Suores frios que enchiam o ar de incerteza… Olhos postos no céu,
Esperando um milagroso Deus que desse um fim rapidamente
Ao seu sofrimento, que era seu e meu…

E os m…

Um novo começo

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O que mais espero da vida é viver ao relento das minhas ideias.
E que sou eu a não ser escombros disto mesmo?
A minha loucura reside no próximo mundo, que eu próprio irei conquistar.
Não sei de onde venho, não sei por que vim, não sei o que é este mundo...
Só me cerca a amargura das hipocrisias andantes e os venenos enfáticos,
Falas monótonas, mentes retrógradas, incoerências incoerentes!
Sei, por fim, que estou neste mundo e que sou escombros disso mesmo.
Assim como uma experiência onde as reacções não passam de invisíveis
Sou invisível perante esta sociedade fértil de anomalias!
Ah! Eu tenho a minha loucura! Quero criar o submundo no meu interior
Onde só reinará os corações que não sintam nem o próprio vazio!
E esta vida, este mundo, estas palavras que escrevo não serão nada!
Aquele mundo - já ali tão perto de todos - é que será a razão das lágrimas
Que o homem solta por viver a sua vida inocentemente...

Álvaro Machado - 21:54 - 09-08-2012

Obscure dictum

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Noite fora, rua adentro, espreito múltiplas personalidades,
Passarem discretamente sobre a luz de sinistralidades.
Luze o candeeiro no fundo da tela intransigente,
Solitária e desvanecida alma de gente!...

Um espectáculo digno de viver,
Inocentemente pela simplicidade de ser fácil…
E, o que observa, encarna um soldado versátil
Observando a vida e o que ela faz sofrer

Alma tão pouco trabalhada por tão poucos
Que passa a ser um termo inconsolável
Pelo homem céptico de regimes loucos
Que vê, anseia e vai esperando somente…
Tudo o resto é-lhe difícil e a sua mente
Vacila num limbo interminável…

E tanto dói esta tenebrosa dor
De fitar a vida como espectador
Em que a mágoa é a humanidade
E o dom de ver é uma infelicidade!...

Álvaro Machado – 20:50 – 09-08-2012

Dirigido ao universo!

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Ó estrelas que estais no céu… Porquê?
Vocês fazem tanto eu pensar…
Vocês fazem tanto eu chorar…
Ó visões longínquas do universo… Porquê?

Porque tudo quanto sou é memória?
E os humanos, distantes de mim, tanto diferem…
Porque somente eu, em versos meus, busco glória
E os humanos, sobrepostos a mim, me enaltecem?

Bem haja boa vida: famílias sorridentes, trabalhos bem ajeitados,
Suor que vale o esforço, mente que brilha aos seus próprios reinados…
Bem haja isto, que é conforme Deus quis que fosse…
E quanto a mim? Ah! Deus quis que morresse!

E tanto ele me deu esperança. Tanto ele me deu tanto…
Eu sempre segui a sua bondade; Porém, esperança?
Aquela velha palavra retratada pelo santo,
Da falsa virtude e bonança.

Ah! Universo infinito de infinidades!...
Estrelas de bêbados desejos!
Luzes, terra, todos estes lampejos!
E água, também água, que traz felicidades!

Deuses do Egipto pesam a alma,
Se pesa mais a minha, por estar sem calma?
Levar-me-ão para o sarcófago
Onde serei, se já não sou, um ser,
Um homem! Um hum…

Alguém...

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Melhor do que ti é o que tens para dar
E é em ti que há a força de mover,
Arrastar e iludir e corações rasgar
Corações tantos que fazes comover…

Tens chama, sabedoria, alma intocável…
Tens amor para os que merecem
E mistério para os que desaparecem
Com um invisível passo insuperável

Mas quem é esse misterioso?
Deus sabe-o assim como tu julgas saber
Mas ambos sabem não o conhecer
Pois, esse tal é, p’ra vida, alguém poderoso…

Ele manda em mares como tu mandas,
Ele vê o futuro mais desprezível
E quando tu achas o impossível
(Uma impossível forma de imagens)
Ele, espírito honroso, sobe as escadas,
E transparece-se-lhe miragens…

Estou na esplanada e escrevo isto
Que é surreal ou real… Não sei…
E, com tudo isto, eu julguei,
Não ser eu escritor disto…

Álvaro Machado - 20h00 - 06-09-2012

Esplendor

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És um esplendor, um paraíso vulgar no meio de tantos...
És um caminho de entre tantos homogéneos.
De que valem as calúnias de não sei quantos?
Se tudo é um rio de génios?

Génios que discursam numa praça pública tanta profecia
Que nem os próprios, apesar de tudo, acreditam.
Encurrala-se a praça de frias sensações; Sensações de agonia,
Atravessam entre os ouvintes que despertam!

Aquela multidão cheia de inércia cansa o próprio tempo...
A hora passa a ser dolorosa e o seu fim interminável.
Dentro em mim, consoante esse tempo,
Acho uma nova forma de me tornar incansável,

Essa de sonhar mil razões para ser um génio abandonado
Que vive numa casa sem paredes, ao relento da opinião,
Desses outros génios tão iguais a si mesmos que nunca entenderão,
Esse motivo que é de estar somente isolado!...

Por isso, também tu és uma luz descontrolada
Que vagueia consoante as exteriores impressões
E nada do que és prevalece aos serões
Da repentina brisa desconsolada

Álvaro Machado - 19:15 - 04-08-2012