Velhaco


Estar presente no espaço velho, degradado
Onde foi criança a velha madeira,
Se é ainda essa sua maneira,
Porque não é esse espaço de seu agrado?

Quadros, diamantes, parede branca, lareira,
E mais aquela janela perto do quarto
Distante dos olhos insontes só é canseira,
A canseira do frio quarto.

Pressente-se as chuvadas de lá de fora;
Vê-se os raios de luz atravessarem
O vidro frio e separarem
O que de mim é lá de fora.

Deixo sentir o sentimento que já não sente.
Meu espaço velho que meu já não é
Porque estás longe da minha maré?
(Velha madeira que te mente)

Como é muda a diferença do grito
E do silêncio que atravessa este espaço…
Há atmosfera asfixiante e cansaço
Do que próprio fito…

Degrada-se o espaço, degrada-se a lembrança
Levando consigo, quero eu querer,
Leva toda a esperança
Que um dia quero eu ser.

É-lhe impossível ser espaço real.
Não é, nem pode ser.
Mas seja tudo afinal
Real e tudo acontecer.

Que demência está agora atravessar
Este quarto frio e de o estar relembrar…
Ó criança na gravura! Ó velhaco degradado!
Esvai-te inconscientemente deste espaço sonhado!

Álvaro Machado – 18:27 – 04-10-2012

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