Pequena Cherbourg




Encaro a brisa do Mar como uma memória de águas passadas.
Faço-me marinheiro, em tempos, e deambulando pelo Mar
Às vezes perco o sentido do que é navegar.

E espera-me Cherbourg. Esperam-me amigos e marinheiros,
Espera-me famílias de outras famílias que não a que tive,
Esperam-me as rotinas monótonas e inertes.

Hasteio a bandeira que me levou e atraco no cais o que trouxe...
São tudo memórias: as que me prometeram e não vieram,
As que me foram dadas de impossíveis e chegaram!

Ó Deuses do Mar, Deuses da Terra, Deuses do longínquo infinito!
Ó brisas insontes, Ó convés perdido, Ó navegação,
Bebam do cálice a chuva desta tempestade!

Não é possível! Não é possível! É impossível ter nascido,
E ter vivido na aldeia humilde, para mais tarde eu morrer
Sozinho, nesta ilha e neste inferno de haver ilha!

Sejam caladas estas brisas infernais da maresia!
Dão insónias, estonteiam sem mais poder querer!
(Tenho saudades de Cherbourg...)

Napoleão tem conquistado o Sul da Europa enquanto navego.
Napoleão tem sido senhor do Mundo, senhor da Terra,
Senhor dos povos... Deste Mar é que não...

Este Mar, meu deus, este Mar! O Mar de quem chora,
O Mar de quem nem sabe navegar o próprio Mar,
O Mar de quem chora não pode saber navegar!

E solta-se a primazia do vento que acerca a ilha.
Com ele vêm as memórias da pequena ilha francesa
Onde se abandonou a criança frágil...

Nada mereço. Nada mereço, meu amor de Mar.
Sou a parte fraca da mente que não soube navegar,
Nem soube ir além do seu triste Mar...

Caio sobre as minhas memórias e a brisa de as haver. (ser)
O convés inunda-se sem que me esperem na aldeia.
(E Cherbourg nunca me voltará a ver)

Álvaro de Magalhães – 21:50 – 29-11-2012

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