Revoltosa inércia




Revolta-se-me a inércia de estar sentado a escrever,
Um trecho dedicado aos imóveis objectos
E à sombra das palavras que estou escrevendo
Sob o candeeiro esborratado.

Sinto ardor nos olhos, as mãos estão trémulas,
A mente gasta e o corpo lasso...
A voz, de brilhante ronquidão, atónita 
Nem sabe qual é o comboio a seguir.

Paragens há diversas, comboios há infinitos,
Carris há excessivamente; Destino é que não há,
Direcções é que faltam, vontade é que não existe
P'ra seguir nesse comboio.

Para onde será levada esta inquietação, esta revolta
Que me tem atravessado desde que acordei?
Qual é afinal a paragem em que espero
E p'ra onde quero ir?

Não sei, sinceramente nem resposta há!
Há incongruência no discurso, na pessoa!
O caminho está tapado, e não há esperança
Que ele volte a ser mais caminho...

Ó Deus de tantos Deuses - de Antigas Grécias e Impérios Romanos -
Traz para esta inerte poesia uma tempestade, um dilúvio
Que leve minhas hesitações, minhas palavras, para o fundo do Mar.
E quanto a mim, Ó Deus de mil nomes, leva-me p'ra Arca de Noé...

Que as Primaveras acabem quando me sentir gáudio!
Que os Outonos acabem quando me sentir lânguido!
Que as portas do céu se fechem! E se abram as do inferno!

Que venha um mandatário qualquer com a voz forte.
Não me intimidará por nada deste mundo... Ou de outro...
Pois venha ele de fronte grotesca e maneta
E me leve ao Anticristo das terras férteis!

Mas, afinal, mantêm-se como dantes: falsa adoração,
Falsa veneração, falso contentamento ao crucificado.
Afinal, como dantes, ele fora crucificado
E traído por quem o amara de verdade!

Paro às portas do inferno; fogo acerca-se-me em chamas ardentes.
Ateu convicto das coisas ateístas, ali imoto como uma árvore,
Ali submisso como se fosse paciência o que esperava
Das portas, dos infernos, das chamas...

E o comboio é de curta viagem...
O início começa aqui, neste trecho,
Que vai eterno até à eternidade,
E acaba ali, durante meu penso absorto...

Álvaro Machado – 20:25 – 02-11-2012

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