Almagesto




Sempre altas, além dos nossos olhos,
Outras maneiras de estar na vida continuam...
Sobre nós, superiores às circunstâncias,
Brilham com um carinho eterno...

Milhares de anos. Anos ao relento esquecido.
O frio das galáxias distantes, a longevidade horizontal que nunca acaba.
Uma gravidade, uma divagação por todo o universo!
O frio causa da morte; a luz intensa oriunda da vida!

E depois elas, sempre superiores a tudo,
Sempre invejáveis como a imortalidade,
Sempre únicas com novas cores,
Sempre rainhas e damas da alta nobreza solar...

Nós, sempre semelhantes à areia das praias,
Vendo a vida perto do mar e da desgraça,
Com um pé a caminho de naufrágio
E uma alma perdida com a maré...

São altas e intensas - todo esse universo estrelar e a poeira inerente a si.
O símbolo de Deus, o sol, rei do império solar, avassalador a quem lhe aproximar,
Mantém a distância entre todos os planetas. Poderoso, intocável...
(Mas elas estão sempre mais alto, muito mais intensas do que ele.)

E depois delas, o homem: Aristarco venceu, sonhou e conquistou
Só com o dom da percepção, com a força e determinação da alma,
Conseguiu derrotar o mundus inteiro. Ele só versus mundus.
E o seu rascunho retractou os astros de Deus.

Um pobre vadio, portanto. Deus viu Deus na Terra e deixou-o vadio,
Mas porquê tornar um génio num vadio? Um rascunho seu valia mais
Que mil textos bíblicos escritos em anonimato feitos não sei onde.
Mas foi pobre e vadio desencorajado a vida inteira!

Alguém quis que fosse assim - e quando as forças do destino comandam,
Não há nada que lhe possa mudar de direcção...
Ainda hoje é relembrado por quem não o há-de ser nunca
E que lhe admira arte sem condições para haver arte no seu tempo,

Mas todo o génio, mais cedo ou mais tarde, tem de partir
E o que fica em terra são páginas e páginas incoerentes
- Pois se o mestre criador da arte desvanece, a arte fica sem sentido.
Que poucos lêem e nenhum admira. Passou por vadio, apenas.

As palavras ficaram, todavia: infinito, o infinito desconhecido de matéria imortal!
O constante crescimento do universo, do espaço, da matéria, do próprio sonho!
As luzes mais vivas, os buracos negros velhacos, as poeiras da esperança!
(Tudo ficou em terra; e os meus segredos estão espalhados pelo espaço...)

E há-de acabar a matéria, mas elas brilharão altivas como nunca;
A cinza estender-se-á aos recantos sombrios do universo,
Mas elas, somente elas, brilhando às avessas da areia da praia
Nos guiarão sempre, de alma e coração.

Álvaro Machado – 16:15 27-02-2013

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