Cismo clássico.


Cismo! Não posso ouvir Tchaikovsky!
Não posso sair de casa, senão alucino,
Crio uma imensa ópera emblemática
E o zumbir dos carros tornar-se-á, ele mesmo, numa obra d’arte!
Não posso! Nem quero, aliás.
P’ra que irei tornar cada passo dado por transeuntes
Numa magistral e ao mesmo tempo destruidora melodia?
Ah, eles não merecem! Está tudo sem alma para a arte!
Prefiro sofrer sozinho, sob a pena da escuridão do meu quarto,
Com a janela entreaberta, o fundo clássico entrando impiedosamente na minha alma
- Que me perturba de uma maneira impossível –
E a saber ter a perfeita consciência que me dói viver…
Dói-me. Não consigo parar de me preocupar com todos os transeuntes, de sofrer com eles…
Não consigo parar de pensar no nefasto futuro!
Olha o maestro, como ele se ergue amando inteiramente a melodia,
Cismático, emblemático, apaixonante!
A apoteose chega-me agora, todos os instrumentos se misturam,
Chegámos à perfeição, à arte de todas as artes.
Levanto-me. Ergo as mãos, ajoelho-me para este homem.
O cismo é cismo de todos!

Álvaro Machado – 15:33 – 04-11-2013

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