Mensagens

Jorge de Sena - Uma pequenina luz bruxuleante

Não obstante o que se passa no mundo, esta pequena luz sempre brilha, sempre existe na sua maneira de ser, independente de tudo o que exista, de tudo o que lhe é alheio.
Brilha. Brilha sempre. É única. E não poderia ter-me dado mais prazer a recitar essa pequena luz, agradeço ao Jorge de Sena por esta obra de arte.

Fernando Pessoa - Quem escreverá a história

"Quem escreverá a história do que poderia ter sido o irreparável do meu passado?".
A mensagem é muito fácil: e se tivéssemos escolhido outro caminho ao invés daquele que escolhemos? Se tivéssemos dito não ao invés do sim? O que seríamos nós hoje? Outro hoje?

Sophia de Mello Breyner Andresen - Esta Gente (Rádio Marcoense)

Actual. Todos nós podemos, e devemos, rever-nos neste poema. Muitas vezes calcam-nos, deixam-nos à fome, com más condições de vida e, por isso mesmo, está na hora de recomeçar a busca:
"De um país liberto
De uma vida limpa 
E de um tempo justo"

Século fúnebre

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Doze cantos, a começar do décimo segundo.
Da praia lusitana tantas vezes invocada
Eu caminho agora para o fim.
Foi a língua que se perdeu
E a pátria está naufragada
- Portugal hoje é assim.

Então hoje eu volto às origens
De erguer em meus cantos
Novos mestres para as novas viagens,
Novas Tágides para novos encantos,
Deuses para a crença não findar.

Doze cantos de solidão,
De amor, de tragédia e de sacrifício.
Heróis que inda crêem em el-rei D.Sebastião
Aparecem encostados ao ofício
Dos que inda matam por matar.

Louvado seja o senhor.
Em grande, louvemos.
Senão os imortais no tempo
Acercam-nos e, depois de impingirem a dor,
Nós morremos.

Ó canto meu, nada sei...
Portugal já não tem a praia lusitana no alto do luar
Nem a esfinge nos há-de voltar a cruzar.
Resta-me apenas o que criei
- Doze cantos sem os não pensar.

Álvaro Machado- 13:43 - 29-03-2014

Ciclo.

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Estou no fim dos meus dias.
É tão claro como a luz de todas as manhãs
E tão tenebroso como as sombras da noite
- Tudo me vem atravessar nestas últimas horas.
Raio de consciência infame, coisas com que não consigo lidar
Coisas essas tão simples como a minha vida,
Como o levantar da cama, alimentar-me, respirar, viver o dia,
chegar a casa, deitar-me, dormir ou sonhar acordado...
Coisas perfeitamente normais que afinal todos fazemos.
Normais? Sim, normais. Qualquer um de nós as faz inconscientemente.
Só que eu nunca julguei que me fosse pesar tanto os remorsos
como têm pesado, nunca achei que a consciência me assaltasse
desta forma descabida, louca, cismática, como tem assaltado...
Achei: ah, pelo contrário, irei sempre fazer o que quiser,
eu não preciso de ninguém, não preciso de vós, nada!
Se te queres ir embora, vai-te, vai-te e não voltes nunca mais.
Arrepender-te-ás, pois eu não preciso de ti.
Disse mesmo isto. Disse isto e, pior do que isso, convenci-me disto.
Achei que conseguia …

Cego poeta

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Não vejo nada do que vejo.
Cansa-me ver.
Eles continuam, os consigo pressentir
Mas não quero olhar.
Deixá-los nesta distância
Que nos faz tão diferentes...

Nada vejo do que estou a ver.
Sinto-me um cego para o que passa.
Só queria poder esquecer
Tanta e tanta desgraça
Que me afronta todos os dias
Da minha consciência...

Escreveu o meu poeta da cidade,
Não vejo nada do que vejo.´
Escreve e sente em prantos
A dor que dá ao viver
Quando o homem vê no pequeno
O muito fel do mundo...

Álvaro Machado - 13:11 - 28-03-2014

É eterno poeta.

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No cume da montanha
Hás-de estar esquecida.
Tão débil como uma folha
No fundo da estrada:
Vista, esquecida, pisada…

Tão ténue que cada ventania
Levará um pedaço a mais de ti.
E vendo bem os debaixo
Sabes, súbita miragem,
Que estás só…

Não vale ter a ilusão
De te ergueres.
Para quê crer?

Ergues, logo cais.
E entras numa espiral
Onde sempre hás-de cair…

Então para quê o continuar
A erguer, ó débil, ténue, triste
Sensação que por mim escorre
Como esse cume da montanha?

Álvaro Machado - 13:17 - 23-03-2014