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Palavras.

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Sim. Podia ser melhor.
Podia ser aquilo que todos são.
Sim, vamos ser isso, vamos ser muito mais,
Vamos ser tudo menos nós.

Vamos falar e esquecer que falámos,
Sentir para dizer que nos magoámos,
Ver para acharem que nos preocupámos,
Ficar para saberem que não nos distanciámos.

É imenso o sol ao fim de tarde.
As ruas confundem-se, à distância não existo,
e ao calor não me sinto existir...

Mas para mim tanto me faz, viver, morrer...
Apraz a intensidade que me dás, isso basta...
Basta-me entrar na rota do desajustado, do entontecido...

E tudo isto para te dizer que não sou melhor.
Sou o que sou, sou a liberdade que deixo criar,
o sentimento que faço por adivinhar
- ruas paralelas à cavidade do meu coração,
pontes onde o declive torna ébrio o fitar,
e a passagem somos nós em volta...

isto sou eu.
resto disso é distância
e mar dessa distância.

Álvaro Machado - 14:36 - 22-06-2014

À memória!

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em memória a ti, companheiro.
muito mais importante que as palavras
são os pequenos gestos.
gestos que nos enchem o coração
da saudade de um que estará para sempre connosco.
então não são pequenos...
são gestos largos, nobres, que significam tudo.

as vozes entoaram e prosseguiram a sua rota natural
acompanhadas pelas guitarras que soaram tristeza nas notas...
capa negra, assim, como sabemos, homenageamos.
e é com a capa negra que sempre diremos:
nós, contigo, sempre estamos.

Álvaro Machado - 20-06-2014

sem desfecho

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para mim estar nessa multidão
é como se não existisse.
cada passo e cada suspiro meu
é uma tremenda ilusão.
é cair de rastos no chão
sem me conseguir levantar mais.

são as iluminações e os barulhos,
eles confundem-me;
e o corpo e a mente perdem-se
horas a fio, sem nunca mais se encontrarem...

caminho, porém. lado a lado com a lua,
eu caminho sozinho...
p'ra onde? p'ra lado nenhum...
lado nenhum, pois; então é tudo um vácuo
e eu sentir não vos importa
coisa alguma...

é mais um que na sombra se mexe
e na sombra se perde
até à eternidade do ser.

é só mais um com fantasmas e receios,
com cadafalsos e mentiras entre eles...

que me importa viver?
viver assim é não viver assim.

pouca coisa resta, porque eu por dentro morro
em um requiem de obscuridade ébria...

estarmos juntos no amanhecer?
mas que amanhecer nos há-de juntar
se nós fomos feitos para estar sós,
longínquos, sem sabermos da existência um do outro,
ainda que saibamos perfeitamente que existimos?

juntos é uma história que…

O eco que vai por Coimbra

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Ecoa no Mondego desta cidade
o som de outros tempos.
Oiçam, bem de perto, a intemporalidade
que vai na corrente
e que são versos.

(Ecoa neste rio o meu coração...)
Eu que, isolado, sem saber tomar
uma direcção,
pergunto aos deuses do universo
se algum dia me hão-de recordar
como eu os recordo...

Não sei, porque me dói muito querer saber.
Dou um breve suspiro, fito as indefinições do ar,
e penso para mim: quero é morrer.
Por que hei-de outro caminho querer,
se por mim ninguém vai suspirar?

Mas é deste rio que me vem a veia de artista
- incerto, desconhecido, embriagado pela sublime paisagem.
E continuei pensando: nem que isto me leve ao suicídio, nem que da minha vida desista,
o que eu quero é saborear esta viagem
aos tempos passados.

Álvaro Machado - 20:12 - 10-06-2014

Total perda

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Perdi tudo...
Mesmo esse nada se esvaiu de mim...
Tornado escombros, vagabundo...
Aqui gelo; e que sou?

Em multidões escondo-me,
mas por dentro morro.
Toda a crença é cavar mais fundo
na minha cave de inércia...

Perdi o controlo...
Tornei-me num deus frio, não sabia...
E quando cumprimentei o barbeiro
ao pensar nisto, ele sorria...

Pois agora solto um breve suspiro
ainda antes de partir...
Se soubessem o fardo que carrego e, inda assim, nunca o tiro...
Só quero apagar o cigarro e sorrir...

Mas agora é tempo perdido
- o que perdi, é fugido,
e o que tenho é efémero
para voltar a viver.

Álvaro Machado - 20:38 - 30-05-2014

pranto recalcado

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silêncio: é noite, chove e eu não existo.
na fé oiço, calo e desisto.
estou só, sofro, e é assim que eu quero estar.
cubro-me com o vácuo, fito o mar
e penso: quero-me ir, quero findar.

Orionte - 00:10 - 28-05-2014

questionar o inquestionável.

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deus?
sou ateu.
só creio em deus
quando me sinto a morrer.
e só, também.

sou mau por isso?
não creio nele.
o olhar de soslaio é quanto baste
- as estrelas vigiam-nos
enquanto dormimos...

sei bem quem sou.
não façam barulho...
já vos disse: sei quem sou. e calem-se, calem-se já.
que agora volto-me para o céu
e fico destroçado...

venha a morte.
aí, e só aí, creio em deus.
porém, antes disso,
nunca me acerquei de velas
e preces destoadas do real.

e morto, morto agora mesmo,
vos digo... digo...
esperem... não digo nada...
o maior segredo do mundo
é mesmo esse: a indefinição.

fim, começo?
deus sabe.

Álvaro Machado - 22:29 - 19-05-2014