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ilusão cósmica

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o universo é demasiado extenso
e complexo para o entendermos.
mesmo que a mente alcance as energias
vindas do submundo,
desistamos de querer o horizonte
que não nos pertence e que nos corrói.

estas noites têm sido assim,
lidas como o testamento é lido aos cristãos,
feitas de crença vã e cismo profundo...
postas em deus as nossas ânsias,
encostados para trás
a ver o que acontece depois...

e lá do cimo dos milhares de milhões de anos-luz
o sentir pulsar da energia eterna
é tomar consciência de toda esta extensão
em que vivemos e que ansiámos saber mais...
fascínio do impossível, ilusão cósmica e pervertida...

desistamos de saber mais.
não sei nem de mim.
estrela-eterna é a minha vida
universo-extenso é a minha alma...

Álvaro Machado - 18:18- 01-07-2014

à saudade

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estou só para o mundo,
para o meu mundo...
o senhor whitman e o senhor pessoa
partiram há tempo de mais...
agora o mundo só me soa
a pessoas iguais...

todos os génios abandonaram
o navio e a viagem da dor...
só as minhas saudades ficaram
em tudo que está a meu redor...

só. e as estrelas de todo universo
soam em uma frieza distante...
mas aquela luz é tão intensa e brilhante
que eu faço de mim um pequeno verso,
uma pequena voz que surge em mim
num momento bem disperso...

por que todos eles me deixaram?
inda há pouco tempo éramos um só...
conversávamos para além do infinito
e riamos do que cada um havia escrito...
por que as ondas nos separaram
e eu me sinto só?...

só de mim e só do mundo.
só. dói escrever estando assim.
até um dia, amigos, até um dia.
escrevam de volta, lembrem-se de mim,
e talvez a vida me sorria
de novo.

Álvaro Machado - 02:24 - 29-06-2014

Palavras.

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Sim. Podia ser melhor.
Podia ser aquilo que todos são.
Sim, vamos ser isso, vamos ser muito mais,
Vamos ser tudo menos nós.

Vamos falar e esquecer que falámos,
Sentir para dizer que nos magoámos,
Ver para acharem que nos preocupámos,
Ficar para saberem que não nos distanciámos.

É imenso o sol ao fim de tarde.
As ruas confundem-se, à distância não existo,
e ao calor não me sinto existir...

Mas para mim tanto me faz, viver, morrer...
Apraz a intensidade que me dás, isso basta...
Basta-me entrar na rota do desajustado, do entontecido...

E tudo isto para te dizer que não sou melhor.
Sou o que sou, sou a liberdade que deixo criar,
o sentimento que faço por adivinhar
- ruas paralelas à cavidade do meu coração,
pontes onde o declive torna ébrio o fitar,
e a passagem somos nós em volta...

isto sou eu.
resto disso é distância
e mar dessa distância.

Álvaro Machado - 14:36 - 22-06-2014

À memória!

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em memória a ti, companheiro.
muito mais importante que as palavras
são os pequenos gestos.
gestos que nos enchem o coração
da saudade de um que estará para sempre connosco.
então não são pequenos...
são gestos largos, nobres, que significam tudo.

as vozes entoaram e prosseguiram a sua rota natural
acompanhadas pelas guitarras que soaram tristeza nas notas...
capa negra, assim, como sabemos, homenageamos.
e é com a capa negra que sempre diremos:
nós, contigo, sempre estamos.

Álvaro Machado - 20-06-2014

sem desfecho

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para mim estar nessa multidão
é como se não existisse.
cada passo e cada suspiro meu
é uma tremenda ilusão.
é cair de rastos no chão
sem me conseguir levantar mais.

são as iluminações e os barulhos,
eles confundem-me;
e o corpo e a mente perdem-se
horas a fio, sem nunca mais se encontrarem...

caminho, porém. lado a lado com a lua,
eu caminho sozinho...
p'ra onde? p'ra lado nenhum...
lado nenhum, pois; então é tudo um vácuo
e eu sentir não vos importa
coisa alguma...

é mais um que na sombra se mexe
e na sombra se perde
até à eternidade do ser.

é só mais um com fantasmas e receios,
com cadafalsos e mentiras entre eles...

que me importa viver?
viver assim é não viver assim.

pouca coisa resta, porque eu por dentro morro
em um requiem de obscuridade ébria...

estarmos juntos no amanhecer?
mas que amanhecer nos há-de juntar
se nós fomos feitos para estar sós,
longínquos, sem sabermos da existência um do outro,
ainda que saibamos perfeitamente que existimos?

juntos é uma história que…

O eco que vai por Coimbra

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Ecoa no Mondego desta cidade
o som de outros tempos.
Oiçam, bem de perto, a intemporalidade
que vai na corrente
e que são versos.

(Ecoa neste rio o meu coração...)
Eu que, isolado, sem saber tomar
uma direcção,
pergunto aos deuses do universo
se algum dia me hão-de recordar
como eu os recordo...

Não sei, porque me dói muito querer saber.
Dou um breve suspiro, fito as indefinições do ar,
e penso para mim: quero é morrer.
Por que hei-de outro caminho querer,
se por mim ninguém vai suspirar?

Mas é deste rio que me vem a veia de artista
- incerto, desconhecido, embriagado pela sublime paisagem.
E continuei pensando: nem que isto me leve ao suicídio, nem que da minha vida desista,
o que eu quero é saborear esta viagem
aos tempos passados.

Álvaro Machado - 20:12 - 10-06-2014

Total perda

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Perdi tudo...
Mesmo esse nada se esvaiu de mim...
Tornado escombros, vagabundo...
Aqui gelo; e que sou?

Em multidões escondo-me,
mas por dentro morro.
Toda a crença é cavar mais fundo
na minha cave de inércia...

Perdi o controlo...
Tornei-me num deus frio, não sabia...
E quando cumprimentei o barbeiro
ao pensar nisto, ele sorria...

Pois agora solto um breve suspiro
ainda antes de partir...
Se soubessem o fardo que carrego e, inda assim, nunca o tiro...
Só quero apagar o cigarro e sorrir...

Mas agora é tempo perdido
- o que perdi, é fugido,
e o que tenho é efémero
para voltar a viver.

Álvaro Machado - 20:38 - 30-05-2014