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gáudio de novo

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esqueci-me que chove...
afinal é-me impossível o sol só ver...
o universo é senhor e tudo move
mesmo se eu não quiser...

esqueci-me que sou de fracassar...
(chove intensamente.)
e mais chove só de eu pensar
que sol seria permanente...

esqueci-me que esquecer
é eternamente um falhar...
não me sentir é como que querer morrer,
um abismo que tendo p'ra saltar...

mas não saltes, por favor.
a vida tão precoce não pode cessar...
ilude os sentidos, o sol vai-se pôr
e a chuva, em breve, cessar...

Álvaro Machado - 01:07 - 18-11-2014

Súbitos deambulantes

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Toma de ânimo
os nossos corpos.
Ao redor, ao cimo
cinza seremos...

Toma este meu sonhar
com toda a certeza
que um dia hão-de lembrar
o porquê desta tristeza...

Toma, leva-me para a distância.
Ninguém lembre, afinal...
Foi tudo breve, numa instância
deram-me todo o mal...

Ide, ide, ó poetas da corrente!
Ide, que todos vão...
Todo o que escreveu aquilo que sente
e viveu desassossegado com tamanha solidão
sabe por que viveu tão repentinamente!...

Álvaro Machado - 21:14 - 25-10-2014

tão-só olhar

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só queria olhar... olhar e nada ser...
ter de mim um vasto mar
e um destino a desconhecer...
mas é tão grande saudade
que em mim vem desaguar...
e é uma dor de tamanha intensidade
que só me faz chorar...
o sentido de não o ter
me deixa à margem
de, na nau, em vão percorrer
essa viagem...

o porto é o bater do meu coração...
as ondas erguidas meu o é amar...
o que resta é tão-só canção
do distante navegar...
e eu só queria ter olhado,
olhado sem nunca ter existido.
Álvaro Machado - 14:38 - 12-10-2014

o dia

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um dia, queria estar lá em cima.
subir degrau a degrau
e chegar por fim a vós.
queria estender a mão
para entenderem
que todo o esforço não foi em vão.
um dia queria cuidar de todos,
brilhar intensamente
por todos os lugares...
ser alento para quem estivesse perdido,
ser esperança para quem não quisesse crer,
ser a única luz no meio de tanta escuridão...
eu parti. há muito tempo.
e a minha alma por aí se propagou
desse tempo para a eternidade.

Álvaro Machado - 23:06 - 11-10-2014

linhas tortas

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e eu desisto; rendo-me
às circunstâncias habituais da vida.
estendo minha mão, atiro meu coração,
acerco-me de atónitos desejos cruéis
para além da praia onde a maré é mágoa...

o que vai cá dentro,
que expande para o universo,
o não sei explicar...
que dói, que é como um buraco negro,
é justo. leviano, aceito-o.

e por entre todas estas vozes,
que sobressaltam minh'alma,
que se imbuem de injúrias,
peço um silêncio profundo
para o solitário poeta dos confins do mundo!

 Álvaro Machado - 19:02 - 29-09-2014

leviana dor

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um vazio torpe alastra em mim.
subo, com peso de alma,
as escadarias da indefinição
e do vácuo do meu ser...

a consciência há-de tomar
dos errantes passos dados
o obscuro sentir que dará fim
aos meus dias...

e o frio e a sensação de estar só
ecoam como se fossem toda a razão...
mas eu nunca abandonei a dor
que tão persistia em permanecer...

Álvaro Machado - 15:33 - 28-09-2014

sonho-além

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um universo muito mais além,
um rosto e um corpo inda mais distantes,
um deambulante caminho por percorrer
no submundo do destino...
um passo. um suspiro. uma indefinição.
tudo, tudo isso, além-nós, além-alma, além-coração...
porque, para além de nós, há-de existir o melhor,
o horizonte que será paraíso e não horizonte...
pudesse eu nunca ter existido aqui...
não ter sido vida, mas morte...
não ter cantado, mas calado...
não ter estrofes, mas folhas vazias...
pudesse ter-me sido futuro, pudesse ter-me fora daqui...
ébrio, cambaleante, desajustado e quem sabe se só poeira estrelar
fosse eu, e fosse feliz... e corresse universo inteiro gáudio
pelo destino ter-me levado ali, além tudo que existe!...

Álvaro Machado - 17:31 - 26-09-2014