carta de refugiado


sentir? o céu escurece.
os sentidos caem para o mar ensanguentado.

sentir-me português, dizias-me?
basta olhar em volta:
uma paisagem de terra distante
faz-nos não ter pátria,
faz-nos esquecer o espírito guerreiro,
(os tais doidos varridos caralho!)
que haviam entrado mar adentro
com naus a apodrecer e a cheirar mal...

eu vivo num esquecimento.
fui esquecido pelo tempo, o amor abandonou-me muito cedo,
o mar soltou a ira para meu desaparecimento.
que te hei-de dizer? não sei quem me escrevo, os dias incomodam-me,
as rotinas corroem-me, a vida atormenta-me...
e só me resta a morte, essa, de tão natural,
alivia-me do flagelo...

tudo o resto deixa-me deprimido.
já tudo se tornou igual, mesmo o inesperado já o havia esperado...
mesmo uma voz diferente, um rosto desconhecido,
na minha alma soam-me repetidos.
e isso, creio, para um jovem como eu,
é já como se fosse um fim precoce.

o por termo à minha vida nunca me intrigou.
tornei-me um espelho estilhaçado
com várias perspectivas...
abri o meu coração e fui enganado
para o mundo que me acolheu...

que te hei-de dizer, então?
hei-de dizer-te que matar-me é algo que me agrada.
para lá inda há vida, menos dolorosa, menos vida, mais alma...
menos turbulenta, mais onírica...

para este mundo? acabei...

Álvaro Machado - 02:08 - 29-08-2014

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