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A mostrar mensagens de Abril, 2014

Prelude

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Aceito-o. Não posso encobrir que nasci para fracassar.
Nasci para estar somente na margem
Que vê tudo e todos a passar
Sem lhes poder fazer paragem…

Se ao lado deles, quem sabe, pudesse ser menos doloroso
O sentir presente todo o vácuo vasto do universo…
Pudesse ao menos o meu eu estar menos disperso
Por um brilhante rasgo de morfina deleitoso…

Inda é noite, já o estou a aceitar.
Aceitar que, se mesmo agora a minha vida fosse deixar,
Ninguém ia dar pela minha falta.

Só – talvez, talvez pensando bem – esta noite de luar
Há-de conseguir entender o que me está a atormentar.
Por cima de mim, só a lua está alta…

Álvaro Machado - 23:40 - 26.04.2014

Mito da existência

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Sou eu, meu amor. Sou eu.
Sou só eu e o quarto abandonado
Que foi de um só pensamento que se esqueceu
Quando mais devia ser relembrado.

Nunca tenho nada onde me agarrar
Senão à chuva e ao vento e às lembranças que vêm do luar.
De resto, que fora de mim, que é de mim?
Não faz nenhum sentido p’ra onde vou, nem de onde vim…

Se eu pudesse mostrar-te tudo o que estou a sentir…
O que grito por dentro com tanta indefinição…
Tudo o que olho no acaso e que consigo pressentir
Com uma tão grande e tão inútil noção…

Faz-se do obscuro do que move a corrente da alma
Uma clara névoa que nunca hei-de entender…
E, sem nunca saber o que estou a ver,
Virá a onda de o mar p’ra eu partir…

«Sou eu, sou eu!»
Disse alguém que do mar veio
E pelo mar também desapareceu.

Álvaro Machado - 01:45 - 25-04-2014

Antes e após

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Depois do poente ninguém está a navegar.
Depois do poente só estou eu,
É noite, e um silêncio pesado prevaleceu
Sobre o inócuo luar.

Antes do poente, tudo era justo e real
- Cada criança, cada som que por fim nos cruzava com razão de ser…
Antes da tragédia, depois da noite havia de vir o alvorecer
E os copos de vinho e as piruetas faziam disto um festival…

(Quando nos juntávamos!...)
Há-de ir longínqua, esta saudade,
Pois tudo passa, e nós lá também vamos,
Com a idade.

Será fim, será começo,
Eu o não sei…
Levo só comigo aquilo que tanto cantei
Deste pós-poente que inda nem conheço…~

Álvaro Machado - 00:36 - 21-04-2014

Modernos.

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décimo primeiro canto.
Consoante o modernismo
a saudade.
A saudade dos gregos e dos romanos
dos pensamentos megalómanos,
e no entanto realizáveis;
Dos impérios vastos de Temudjin e César
que, vendo homens, viam conquistas
- um que sozinho comandava milhares.

Modernismo, o desajustado
e traiçoeiro.
Como poderá evoluir o homem
se os arquivos não se procuram
nem a história se pretende saber?
Diremos que Aristóteles nem existiu
e que os livros metafísicos são contos de fadas...
Que disparate, Da Vinci, Galileu, que horror.
Ser moderno é ser só assim.

Os que morreram, morreram; já lá vão...
Que interessa se os perseguiram e torturaram
para que hoje nós andássemos aqui?
Nada...
Age-se com indiferença, até com arrogância,
se sequer nos abstraímos a pensar nisso.
Que interessa quantos morreram a caminho da Índia
para que se unificasse o império?
Dos poucos nomes exaltados, que eu conheça,
só Vasco da Gama, que até vem nos descobrimentos,
mas onde os largos milhares de sacrificados
nem tampouc…

Consciência ampla

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Vou estar aqui sentado
Até que tudo seja vão e inútil.
Não me interessa.
Não tenho medo nenhum de nada.
Nem mesmo do fim.
Ai, sei lá, que de tanta dor que eu trago
Acho que já não não vale a pena...
Estarei, então, aqui
- No meio das coisas, mas longe do meio;
Só sentado, no relento da saudade,
Para lá do mundo, para lá de tudo,
Entre a calma e a plenitude
Acima de nós.
E sentado, do fundo amargo e doloroso da vida,
Paro: afinal não existo...

Álvaro Machado - 22:30 - 15-04-2014

Álvaro Machado - De Repente (Rádio Marcoense)

Quando me sento a pensar no sentido de tudo que está ao meu redor, vejo que a vida é feita por um grande vácuo e que o tédio que me acerca é mesmo isso: um grande tédio em tudo.

Álvaro Machado - Conversa ao leitor (Rádio Marcoense)

Uma criação diferente, o que torna o poema também ele diferente e muito liberto das regras habituais que normalmente estão inerentes a ele. O leitor que se sente e oiça aquilo que lhe digo, pois muito aprenderá.

Fernando Pessoa - Leve, breve, suave (Rádio Marcoense)

O canto desta ave era "breve, leve, suave" e portanto daria uma prazer enorme só o facto dele existir. No entanto, a consciência de Fernando Pessoa e o "escutar" torna esse deleite numa mágoa, numa dor de pensar destrutiva.

Álvaro Machado - Universo que espera (Rádio Marcoense)

Sem medo nenhum do que os outros podem pensar ou achar de mim. Sou eu mesmo. Maluco, desvairado, o que for. Mas sou-o. E sou feliz, convicto dos meus sonhos e apreciador da literatura. Isso é quanto baste para mim.

Cave do tempo

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Estou na cave do universo
E é tão pesada a consciência de tudo o que existe...
A alma vagueia aos prantos pela rua da cidade esquecida
Onde as pessoas fazem-me ter consciência
Que a morte vem, vem lenta, silenciosa, discreta
E que, quando vier, virá impiedosa.
Levar-nos-á sem dar-mos o nosso último adeus.
Parece que nem existimos...
Que me resta? Esperar?
E esperar o quê?
Será que só irei sentir uma rajada de vento
E depois caie redondo no chão?
Sei lá eu...
O que eu sei é que o tempo pouco é.
Às vezes andamos pelos atalhos do quotidiano
A fugir ao que realmente importa, que é abraçar as pessoas que amamos,
Poder dizer todos os dias o quão especiais elas são para nós.
Mas o tempo passa. Quer digamos ou não, ele perde-se, nós perdemo-lo...
Não volta. Só passou. Era esse o seu sentido, o de passar sem ficar...
Agora que eu queria dizer o quanto amo o mundo, tarda o dia, tarda a alma.
Passei horas e horas a tentar compreender o incompreensível
Para poder afirmar que nada é exacto nem qu…