Um navio de personagens



Gostava, às vezes, de não pensar no que está à minha volta.
Quem não pensa, não tem a penumbra como horizonte,
Tem, porém, outra coisa, talvez superior, chamada inconsciência
E a janela do seu quarto é fulgente.

Quem não pensa, não vive aquelas horas de agonia
Em que até chover nos dói, ou até quando faz sol...
Não tem aquelas insónias que só nos deixam mais a sós
Do que a nossa solidão nos permite enquanto sonhámos...

Mas temos, ainda assim, que viver. Alguém tem que gostar da arte,
Criá-la, mantê-la viva, exaltar os artistas...
Por isso, eu tomo a vida com uma constante liberdade de pensamento
Que me faça roçar no outro universo paralelo deste...

E não, não estou sozinho nesta viagem. Também eu criei pequenos pensadores
Dentro de mim, para que possam estar justamente na constante busca
Do incompreensível, do longínquo segredo que arrastou gerações inteiras!
O barco leva-nos para onde calhar.

No convés vai Mister Winston, a minha recente criação,
Acompanhado de Leonard Sagè, o português perdido em França há dois anos,
E vão tendo uma conversa extremamente intensa sobre ideais;
Fumam um cigarro atrás do outro, serão imensas horas de conversa...

Enquanto eu e Álvaro de Magalhães dirigimos o navio,
Se bem que ambos queremos que ele naufrague, ou se perca para sempre.
Para nenhum de nós a vida tem sentido e fazemos para que ela assim continue.
Somos dois poetas que não gostam do que escrevem, nem do que sentem.

Já cai a noite. Recolhemos ao interior do navio para jantar.
Jantámos os quatro juntos, fomos divagando entre tudo e nada,
Até que o nosso estado ébrio permitiu tirar a máscara da cortesia
E, simplesmente, dizer: A vida é para se amar!

Álvaro Machado - 19:46 - 05-10-2013

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