Tarde dos bons costumes
Não sei, mas acho que estou perdido. Para mim, todas as pessoas por quem me cruzo, Todo o lado de lá das ruas e dos passeios, Todo o pôr-do-sol não tem sentido. Os meus dias são devaneios E dou-lhes pouco uso. Uma vez, lembro-me perfeitamente, Encostei-me à sombra a ver os animais. Larguei os costumes, as regras que deus me deu, Naquele instante fiquei tão contente Que, com franqueza, não sei o que aconteceu. Foi bom e desapareceu cedo demais. As mãos com que lavo o meu rosto E a cara em que me vejo são o meu desgosto. Eu queria ser quem sou e não quem estou a ser, Queria arremessar o jornal e as teorias que nada valem, E fugir, fugir é a viagem Que sozinho terei de fazer. Ó alma de ventos tristes, qual é o caminho a seguir? Dá-me alguma coisa com sentido e que possa sentir; Devolve-me a tarde que me deu prazer, Que agora as tardes são de ócio e sem esperança E o sol que lhes alenta sempre cansa. (Só Deus sabe o que está a acontecer!) Álvaro Machado – 23...