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A mostrar mensagens de junho, 2013

Tarde dos bons costumes

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Não sei, mas acho que estou perdido. Para mim, todas as pessoas por quem me cruzo, Todo o lado de lá das ruas e dos passeios, Todo o pôr-do-sol não tem sentido. Os meus dias são devaneios E dou-lhes pouco uso. Uma vez, lembro-me perfeitamente, Encostei-me à sombra a ver os animais. Larguei os costumes, as regras que deus me deu, Naquele instante fiquei tão contente Que, com franqueza, não sei o que aconteceu. Foi bom e desapareceu cedo demais. As mãos com que lavo o meu rosto E a cara em que me vejo são o meu desgosto. Eu queria ser quem sou e não quem estou a ser, Queria arremessar o jornal e as teorias que nada valem, E fugir, fugir é a viagem Que sozinho terei de fazer. Ó alma de ventos tristes, qual é o caminho a seguir? Dá-me alguma coisa com sentido e que possa sentir; Devolve-me a tarde que me deu prazer, Que agora as tardes são de ócio e sem esperança E o sol que lhes alenta sempre cansa. (Só Deus sabe o que está a acontecer!) Álvaro Machado – 23...

Derradeira viagem

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Estou na viagem que dita o meu fim. O sopro do vento desta vez só tem uma direcção. E eu nunca quis verdadeiramente isto para mim. Tudo o que aconteceu foi da ocasião. Quem me dera que a vida não fosse de coisas tristes, Nem houvesse tantas pausas a viver. Só queria estar mais tempo convosco, não tão distantes, Até ao novo amanhecer. Vamos. Se partir é só mais uma etapa Não há que ter medo, nem fazer grandes despedidas. Então eu deito fora a capa De tantas que tinha vestidas. Parto à primeira brisa da manhã. Sozinho para lugar nenhum. Com o amanhecer e os pássaros e uma boa quantidade de rum - Que é quanto baste p'ra me lançar ao mar - Eu vou andar por aí com a sorte e com o azar. Vou consoante os corsários. Serão eles, daqui a anos, os aeronáuticos Do momento. Sobrevoarão os países Bálticos E pilotos serão vários. (Mas tudo isso está no porvir Coisa que eu esqueço no meu partir... Que consoante as injúrias do leme É que realmente a vida me treme.) ...

Rascunho sacrificado

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Tudo que em mim é Se distancia mais da rota. Tudo que em mim vive Nunca é de ninguém. Estar ébrio é a minha condição De estar sóbrio. E os que vejo à minha volta, Tantos desses, não são nada. A vida é monótona, estejamos feliz ou não. Vivamos, portanto. Tenhamos fé: Deus é a brisa das estações. Ah vida dolorosa, cansativa, igual em todos os lados! Do homem te acercas; do homem tens parte de ti! E os sentidos, o que são os sentidos? O que é ser-me? O que é ser-vos? E a minha embriaguez não me permite responder. Não quero viver na distância, nem viver do momento. Não quero ter nada, não quero viver por nada. Chega! Chega de ouvir a voz de Deus! Álvaro Machado - 03:32 - 23-06-2013

Decadente Paris

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Sinto, ao crepúsculo, o peso de estar vivo como nunca ninguém sentiu; Ninguém nunca conheceu a solidão da maneira que eu conheço. E eu estar neste momento na igreja com a luz apagada e com o coração longe de Deus É pecado meu e de mais ninguém. A escuridão apodera-se do corpo e torna-se mágoa estar vivo... Com a lua por cima dos meus olhos e tão longe deles ao mesmo tempo... E escorro lágrimas por ninguém (talvez não tivesses existido nunca; Foi tudo irreal: eu, tu, nós e todos eles...) Por estas bandas ninguém passa; não se vê viva alma numa cidade assim, Repleta de cinza e de bruma no horizonte... Hei-de sozinho chorar este destino se estes versos são a minha decadência! E ver-te, Torre Eiffel, é não ver nada... Leonard Sagè – 02:04 – 22-06-2013

Insignificante

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Não pedi muito. O que pedi poder-se-ia cumprir. Fosse o universo tão pequeno como o homem é E as cavernas inteiras ardessem, e o mar a meio pé Acompanhado cada partir. Fosse este gosto primaveril sempre assim E o que por ele se movimenta, A verdade guardar-se-ia para mim E toda a natureza tornar-se-ia opulenta. E se a humildade não me concebe essa condição, O que me resta é sentar-me no recôndito coração Repousar, esquecer e continuar… Somente ter como certa a voz de Deus no vento. Ele batia-me na face e num breve momento Senti que lhe estava a falar… Álvaro Machado – 22:29 – 20-06-2013

Dúvida permanente

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Se calhar o destino é para vós. Nunca me revi nele nem por um breve momento. Se calhar, ou decerto, a vida pertence a vós E não a mim, que nunca me senti realmente a vivê-la... Se ao menos um gládio soubesse manejar! Ou, por simples facto, um escudo, para me defender! Se ao menos uma dor menos agonizante eu sentisse, Um pouco mais me sentia a viver! Se cada alma fosse pura como as que penso que existem, Mergulhado em silêncio e plenitude e paz eu estaria. Se nada disto existisse, nem mesmo o que não existe, Como um oceano largo e quase infinito se viveria. E, nem eu, nem vós, pode sequer falar da vida Porque nem sabe se ela realmente existe. Somente nos cruza o sonho, que tem diálogos e paixões, Que tem maneira de iludir-nos de tão comovente. Toda a dúvida existe nos elementos, Na dimensão, na impossibilidade, no infinito... A vida é para vós, que fazeis dela tantos lamentos E não para mim, que a faço só um grito... A dúvida pe...

Sem obstáculos

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Enquanto está longe, Porque só longe pode estar, Toda a vida é para apreciar. Todo o caminho é para seguir. Toda a esperança é para acreditar. Todo o meio é para erguer. E os pássaros só têm que voar, Porque o futuro deles é esse. De verão em verão, de sol em sol, De paisagem em paisagem... E seguir sempre, Sempre em viagem... Álvaro Machado - 19:39 - 19-06-2013

Futuros longínquos

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Está no futuro, no futuro dos futuros A verdadeira dimensão da humanidade. Está noutro universo, sucessor deste, Quem nos dirá quem agora não sabemos. Está no vácuo, na matéria negra, nesses buracos tenebrosos, A nossa origem e o que faremos com ela. Se não compreendem quem agora sou, Não poderão compreender quem irei ser. E as almas são levianas no Jardim do Éden... (Tão pesada, minha alma, em que imperceptível galáxia a espera!) Planetas renovar-se-ão sem mais ninguém poder ver, Novas vidas gerar-se-ão sem mais ninguém poder viver. O girar da terra é imenso, é grande, é majestoso. Seu sol ardente, sua lua deslumbrante, índole magnifica, Haste de toda a cor, vontade de todo o ser, Deus crença da criação, luz sublime do crescer, Água de todas a esperanças... E, por fim, o homem e as suas lembranças... O futuro é-nos eterno! Quem o não viu?

Alvorada

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Tirem, tirem-no do abismo, Senão ele cairá. Coração que sempre tomará Verdade em seu cismo. Cessem o estado masoquista, Pois vida nova está à vista. Foi profunda escuridão, Será leve, sem ingratidão...  Tomem, tomem-no de bondade, Se pelo seu sentir se criasse o mundo Ninguém cairia no abismo profundo Porque o mundo todo era de felicidade. Dêem a vocês mesmos Um trago do meu ser Até que, ao anoitecer, Todos nós sumiremos.  Álvaro Machado – 22:09 – 18-06-2013