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A mostrar mensagens de Agosto, 2012

O meu confuso obstáculo

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Nunca oiças o que te digo...
Ah! Se eu te digo isto...
Esquece o que te digo,
Esquece que te disse isto!

E porque te falo ainda falando?
Porque te escrevo e porque estou a dizer?
Ah! Se eu pudesse, eu próprio, viver!
Que seria disto que estou demonstrando?

Tanta coisa que me faz dizer estas coisas...
Mas escrevo sobre nada - que é do coração.
Este inerte isolado na multidão,
Que sabe a múltiplas coisas!

Não entendo ou pelo menos não me faço entender
Aos que passam transeuntes nesta avenida,
Invisível para todos menos para a minha vida
De nobreza destacada até morrer...

Tem um formato a jaspe baço de variadíssimos formatos.
Tudo anda há sua volta num atónito caminho extravagante.
Estou dentro de tudo aquilo... Envoltos rostos,
Sobre a rocha fria deste meu pensamento alucinante...

E volto a ti, que é de ti quem falo. Que te hei-de dizer?
Nunca darás ouvidos ao que te digo, nunca irás perceber.
Esquece toda a forma que te escrevo sem querer
E ainda assim eu próprio estou a escrever...
Ah! Que obscuridade de rot…

Aberratio personae

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Está silêncio no vidro da minha janela.
No interior luze uma queimada vela
Que arde e faz arder a alma
Como uma chama sem calma.

Lá fora! Aquele exterior da sociedade!
Os meus olhos vêem diante de mim
Uma união, de facto, num frenético festim
E a janela, por onde vejo, cega-me de claridade...

Perco a visão de todos eles! E de nenhuns!
Será que eu estou a vê-los? Não sei...
Ó pobre coração que nem em ti posso acreditar!
Fito aquele fundo real d'uma tela que eu próprio criei,
Imaginei e pintei... E sinto ainda estar a pintar...

Mas cá dentro continua a atmosfera apocalíptica;
Uma atmosfera de cortar à faca, um ar que humedece...
E a chama arde aos meus olhos que a enaltece
Por ser um momento real de visão céptica.

Álvaro Machado - 00:35 - 31-08-2012

Guerra valente

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O guerreiro, que de guerreiro tem tão pouco,
Carregado de energia por de trás de um exército
Fazia-se de fera incontornável em todos os sentidos
E gritava aos outros num silêncio rouco:
"Lutem, lutem e lutem!..." Lutariam afinal os soldados?

No céu, que de prolongando o tempo é virtude,
Passam-se dias por sóis controversos e chuvas metódicas
Vai mais além... Na mesa defronte de mim, que deve ser de jantar,
Alternam as famílias, as conversas, as ideologias do seu pensar
E a hora de jantar começara da maneira mais que rude.

Tudo se anseia pelo dia de amanhã, apesar de incerto.
Morrerei eu em combate? Morreremos nós numa batalha sangrenta?
Espírito de guerreiro, que não sou, atravessa-se por certo,
Nesta mente turbulenta.

Chega a hora... Despedida à mistura; lágrimas escorregam...
Escassa, toda a hora, que é curta ou parece ser.
Mas nós, ávidos incontroláveis, saímos ao amanhecer
Como os marinheiros quando navegam
Aquelas marés bravas que enchem as pulsações,
D'um infernal frio que nos dá ávi…

Ilha dos amores

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“Vamos à ilha”, disse ela frenética
Com a voz tão entusiasmada que contagiava.
Perguntei-lhe a ilha de que falava,
“Ilha dos amores” respondeu entusiástica.

E as flores do jardim enchem-se de crianças,
Empolgadas pela energia arrítmica da inexperiência…
Também me leva a ficar empolgado e a reviver as lembranças,
Da turbulenta e ávida infância.

Estranhamente achei a manhã de hoje estranha e confusa.
O céu que se avizinhava azul chega ao fim em plena escuridão
Se o vento também… Toma conta da nossa audição
Que é levada pela corrente difusa?

Mas nada se assemelha a outros que tais,
Insontes do belo dia que lhes espera
Radiosos! Dias esses que não são normais
E a vontade desespera…

Por cima dos filhos e dos seus companheiros
Está um fim de tarde lânguido –
No entanto, mantêm-se debaixo dos sobreiros
Esperando o temporal destemido

E nada sei destas observações que me entoam
Como um som clandestino ao maestro…
Só resta escombros que destapados ouvem
O som do meu próprio astro.

Álvaro Machado - 18:57 - 27-08-201…

Nos passeios

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Nos passeios que faço, diários,
Cruzo o meu corpo com os olhos
Daquela figura sombria que passa
Entre mim e a rua descalçada

Vai entre multidões que são outras tantas
E os gestos de si mesma despedaçam
Quem lá não passa; Desvanece a luz
Ainda que vá de dentro para fora…

Seu vestido branco com manchas castanhas,
Seu sapateado de camurça que vai apressado…
Passa, e quando passa pelo meio de caras estranhas
Vê o meu rosto destroçado também.

Desvio-me para onde julguei querer ir!
E não.. não me levem para outro lado!
Um pouco ébrio recuo distraidamente
E o lado que sigo, sigo-o por não querer
Continuar a seguir a rua que tu segues

Continuar a contemplar esse teu semblante
D’uma figura digna de se fitar!
Continuar apenas continuando frémito
E, sem nunca passar disso, também sonhar
Esta figura de Silfide. Álvaro Machado - 16:34 - 26-08-2012

Sensação derrotada

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Tão longe é estar longe de algo.
No desassossego das direcções erradas
Escolher um caminho que nem é certo nem errado
É estar perto dos falhanços corporais

Dispersa-me a distância no meu interior
E descubro mil razões para o que não sou...
Escurece a névoa no meu pensar de não estar
Pensando o longe, o perto e o devagar...

Descobri que o que sinto é transeunte ao que é sentir...
Queimam-se as páginas flagelas da precoce infância infeliz
Já nada espero dos rostos apagados, das cinzas apagadas
Na nau que está a remar, e rema até deixar de existir...

E, já na flor da idade, ainda Rei de Portugal, aclamo patriotismo
Elevo os olhos à luz de um Deus guardião ao meu Destino
Começara a lacrimejar como um rude defensor do despotismo.

Estou vago, este coração está vago... Não espero nada,
Não espero ninguém neste dia triste.
Estou longe de viver, estou perto do limbo, do vago nada...
E, vago de mim próprio, continuo sentado esperando.

Tremem as mãos despojadas e cheias de amargura
Pela manhã há ventanias repletas …

Terminal bizarro

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A linha, este terminal de linha que me invade
Está prestes a se esgotar; Espero apenas...
Vem a brisa ondular os cabelos e agitar as penas
E bate asas, o anjo, num voo cheio de felicidade...

Durante o dia aquele céu azulado e fulgente
Brilhava sem precedente; Há volta os semblantes
Reluziam durante os risos inconstantes,
Daquela gente...

Eu olho o céu - aquele terminal bizarro!
Estes olhos lassos fitam com pavor
E não acreditam neste final que narro
Se eu nem sou narrador?

Álvaro Machado - 21:31 - 23-08-2012

Nuvem na cidade

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Uma nuvem, instantânea, está sobre a cidade
Os peões passam transpirados do trabalho
E o calor fá-los percorrer um rápido atalho
Evitando toda aquela claridade

No café temas são discutidos inutilmente
Há guerrilhas ao balcão sobre a economia
Ninguém entende os especialistas e a sua tirania
Horas passam desinteressadamente...

Porém, ao fundo do corredor avisto um fumador
Todo aquele incenso percorre-me nas artérias
Fiquei ébrio e por momentos fui sonhador
E o café era um salão de alegrias...

O vago tornara-se um cadafalso.
Caminhava o carrasco eleito pelo senhor
Em passado curto e arqueado acusado de falso
Via tudo, pela primeira vez, na pele de espectador,
Esperando a hora final.

Álvaro Machado - 23:35 -22-08-2012

Vistas...

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A cruz ergue-se pelas costas que me abandona…
Diante de mim estão fantasmas sem nome…
Está escuro e esta noite mata-me…

Vêm os fanáticos de David rezar seu nome
As vozes são roucas; Ilumina-se no altar
Padres de batina olhando-os cantar!...

Soa a música dos mortos ao meu ouvido
E no fundo deste retrato fusco eles lá vão
(Fantasmas) desaparecendo ao primeiro apagão…

Ó noite de um só homem, de só uma solidão!
Tu és a minha rainha e eu o teu fiel servo!
Vem, acompanha-me… Por nós espera o jazigo…
Minha rainha infiel! Recordas-me a brisa da fogueira
Em que tudo era lume e cegueira!...Álvaro Machado - 23:07- 22-08-2012

Terra triste

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As pessoas entristecem a terra, lavam-na em lágrimas,
Escorre, escorre e escorre toda a memória
Da água que cai dos inférteis solos
Abre-se um túnel a meio caminho da glória
E escorre até ao fundo aqueles rostos,
Estranhos aquela terra, minha cidade natal…
Seus rostos são de um barro sem meios
Que atinge um fim súbito e infernal
(E escorre a água, escorre as lágrimas!...)

Álvaro Machado - 23:11 - 20-08-2012

Homem egocêntrico

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Egocêntrico espírito de águas inquietas
Exalta o que de mau há e parte sem sentido...
Acha um novo estilo de excentricidade
E faz tudo parecer verdadeiro

A corrente está brava e calma, feroz e sensata...
Já lá vão as memórias do eu marinheiro -
Que nunca fui, nem em sonhos tinha sido...
Inda assim percorri as águas da infelicidade

Finda todo o espírito de águas inquietas
Ele continua o caminho ainda a gritar
Subitamente cai de joelhos e olha Deus
Seu último momento fê-lo acreditar,

Nós homens fomos feitos de ilusão
E os que vão pela rua fora, altivos,
Iludem a própria ilusão dos vivos
E verdadeiros nunca serão.

Álvaro Machado - 17:24 - 15-08-2012

Lados opostos do Eu

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Aos olhos do que não vêem, sentem ou respiram
Brilhas entre o nascimento precoce e passado
E essa constante voga dos que te viram
Levar o intervalo para o outro lado,

Onde não há céu nem inferno… E todo o sonho é real!
No meu presente e no seu intervalo apenas acho fragmentos
Do próximo mundo – que ainda é algo surreal.
E todo o homem por aqui vagueia cheio de fingimentos

Humanidade destroçada pela incapacidade de sentir…
Corpo preso, mente aberta, ascensão para o outro lado…
Inquietação suprema aos olhos do pensador encurralado
Pela céptica forma de sentir…

Não me encontro no lado vivo e inocente
E o coração que me fez homem e pensador
Leva-me ao lado em que não pertenço à humanidade insonte
E a mente, apenas ela, faz com que, do outro lado, seja sonhador…

Álvaro Machado – 21:45 – 13-08-2012

Espelho do que não sou

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Influências abstractas advêm do dom de sonhar:
Ele está desejoso de ver espíritos maléficos caminhando pelo horizonte,
Ele quer ver o mundo irreconhecível e sem amor por preencher
Ver desvanecer aos seus olhos a inútil humanidade,
Ver a desarmonia entre as classes, a descrença na mórbida religião
Mas, de repente, desfigura-se-me o retrato
E não sou mais eu sentado a este espelho
Escrevendo o que sou ao mundo e o que não sou ao vidro estilhaçado…

Álvaro Machado – 18:00 – 13-08-2012

Insolvência amorosa

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Levas-te a insolvência dissolvente de um grande amor
Causando intriga e demência de amar,
Levas-te junto de mim o teu calor
E a fórmula trágica do teu olhar...

Em mim, como que não, espalhou-se uma ventania
Leve, fria e cruel; e tudo era uma composição
Que já de si avassaladora (a bela cantaria)
Separou-me de ti e do teu coração

Vago sentido em deserto lusitano... Águas provincianas...
Há amor para além de amar - e além ele sem fim
Eleva-te a mim como Afonso elevou as veias lusitanas
E volta para este esperar que há em mim,

E tanto esperei pelas tuas ávidas mãos que perdi a noção
De que havia morrido anos atrás, ainda na longa espera...
Esperei, esperei, esperei... O próprio tempo esperou para ver quem era,
E ambos esperamos uma figura em vão...

Álvaro Machado - 15:34 - 12-08-2012

Pela janela do clero

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Durante anos a raiva tornou-se um modelo de paz
Lá se davam voltas pela rua descalça e fria
Onde o povo unido sempre voltava atrás
E nunca perto chegaria.

As igrejas de mármore destruída pelas vistas de fora
Causam pena aos olhos que passam cheios de bondade
Dentro, algures no interior, pelas esmolas dadas na hora,
Surge um magnífico altar ornamentado de artificialidade!

Atrás de mim há vozes em couro altivas e gastas
Que elevam o espírito além beatas...
O interior que prospera, o exterior que desola...
Luxuosos santos cheios de bonança tangendo a viola,

Abreviam a melodia à sua santidade...
E a luz interior do pobre que passa transeunte
Afoga-se, sem chama, sem intensidade
E o sabor a derrota leva-o no fim ao paladar de triunfante.

Ele vai a mendigar, porta-a-porta, até encontrar o célebre cristão
Rico, fiel e cheio de bondade, abre-lhe a porta repentinamente,
Rejeitando o seu afecto com aquela triste alma não-digna de um tostão
Chorando tristemente...

Durante anos eles reinaram
A dádiva caída do senhor…

Baú de recordações

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Abria o baú saudosas iluminações
Movia o espaço compartimentos regenerados
E no canto, em poeira, a baixela,
Aproximava contraditórias orações

Levantava-se numa melodia avassaladora
Recordações, lembranças, memórias do que não fui...
Leviana oração ao culto dos mortos
Fugia-me por entre as mãos...

Baços vidros multiplicam-se na sala acorrentada
E todas estas pesadas vivências
Fazem ilusões ao meu espírito!...

Choro a incapacidade de lacrimejar
O vazio do próprio ser que há em mim...
Só a metafísica carrega este acreditar,
Acreditar que há um fim...

Mas longe de mim viver esta inerte vida!
Pois que seja lançado sobre mim, Deus todo-poderoso,
Desgraças que não sejam possíveis de medir

Tu que és a razão desta oração ainda incompreendida
Que levo junto de ti... Ó Deus piedoso,
Quanto de ti estou desejoso.

Porém, passa a avidez no meu sentir
E já só me resta ser um feliz ateu
Para que no meu pensar tu não sejas eu!...

Álvaro Machado - 1:51 - 08-08-2012

Ira da Guerrilha

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Foi-me contado o segredo de toda a ira que atravessou a mente dos guerreiros
As casas enchiam-se de suor esfriado, os bares de assombrosos homens fardados,
Leais e de força bruta, erguiam a nação pelas razões bizarras dos governos
E ao longe, no horizonte, escutavam-se as sirenes dos sinos desesperados,

Lançavam a guerra à boca do povo: ma
r, terra, céu... Tudo condenado!
Enchiam-se cofres de ouro pulverizado, e o diamante era a graça divina;
Cobriam-se fileiras de devedores pela transparente vitrina,
Que modificava o rosto de um pobre desafortunado,

Seus olhos erravam à sua alma... Poupanças de uma vida em vão...
Olhares e mais olhares: desconhecidos à mistura numa mesa de madeira,
Nem sombras restavam naquela lugar feito de falsa noção
E de todo aquele clima de vontade guerreira.

Começaram os primeiros tiros quando me esqueci de estar a sentir...
E gritos sobressaiam às maiores desgraças que se poderia imaginar...
Não sei o que ouço, não sei que me contam, não sei acreditar...
Mas …

Sangue de escombros

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Percorre neste corpo a consciência de artista,
Nos enfadonhos dias da Primavera ancestral
Em mim nasce a oligarquia utopista
E a inconsciência de infernal.

Nada é impossível quando tudo que temos é inexistente
Nem tão pouco há sensações, cóleras, gritos de gáudio…
Desvanece o pensamento ao sangue derramado;
Desvanece a luz ao teu resto desfigurado

E, na escuridão da noite, canta o rouxinol
A melodia assombrosa de uma ópera Italiana!
Meu rosto de escombros chora esta sensação provinciana –
Que esconde a luz ao próprio Sol

Mas quem és tu, atónita utopia?
Nem tão pouco acho vocábulos para te questionar
A ti e ao porquê de existires… Ó infernal oligarquia,
Quanto do teu poder é meu sonhar!


Álvaro Machado – 22:23 – 05-08-2012

Objecto

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Desta vida levo todos os momentos descontentes,
Da minha infância ilusória, futurista e cruel...
E a minha chama apagou-se à luz do nascimento
Que não conviveu com este descontentamento...

Mas não me peças cartas com versos insensíveis
Pois, na verdade, nunca conseguiria sentir...
Ó Destino lasso que estás a emergir
Aos meus sofrimentos incansáveis...

Todos me confrontam: sou o objecto,
Em que todos querem possuir;
Sou o infante sem afecto
E um sonhador que se vai extinguir...

Águas descontentes... Batalhas dolorosas....
Volta para mim, eterna infância,
Dolorosa e vaga ânsia...
E que as nuvens me façam um tentador fiel...

Álvaro Machado - 16:04 - 04-08-2012