Retorno à nau


Muito lucidamente navego.
Não com esperança no que vou encontrar, porque não vou encontrar nada;
Não com o pensamento no que existe, se nada existe…

Porém, navego. E navego lúcido na minha condição de marinheiro indefinido
Que não tem tempo, não tem datas de seu nascimento nem de sua morte, não tem histórias para relembrar…
Quando abri os olhos, já só havia mar à minha volta.

Então pertenço ao mar e só ao mar eu obedeço.
Conheço-o como ninguém conhece
Porque sou irmão dele.

(Será que há outros como eu?
Que vagueiam em alto-mar sem a humanidade
Porque o destino assim o concebeu?)

Agigantam-se as ondas, os cais da minha aldeia estão desertos,
O nevoeiro oculta o que há para além do horizonte
E Cherbourg é o meu habitat.

Viver na indefinição de quem somos e do que fazemos
É uma maneira mais subtil de sofrer.
Sou só, lúcido e navego.

Álvaro de Magalhães – 22:19 – 30-12-2013

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