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A mostrar mensagens de 2014

Maestro Hades

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Raie-me de novo a consciência
e fuja de mim o cismo contínuo
de que virá morte entre o sonho e a realidade
onde em permeio hei-de eu estar...

Ocultai-me a praia submissa
onde desaguam brutalmente
todas as almas que se opuseram
à inconsciência...

Solte-me um canto cheio de mim
em este preciso momento!...
Deixai-me erguer do medo
que não me deixa ir avante mar!...

Pois no fundo em mim detinha
uma inocente crença
na eterna vida, no eterno deleite
imune à tragédia clássica...

Testamento sanguíneo

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No fundo de um corredor,
Pelo meio de uma vitrina fusca,
Um só coração sente a dor
A entrar impiedosa e brusca.

Um vidro ténue, partido e disperso pelo chão,
Soa-me com um desaconchego
- Quão inevitável me é a solidão
Diante deste obscuro desassossego?

Que o frio e o luar se sintam
Com toda a intensidade ardente!...
E onde a alegria e a fronte se distanciam,
Estática e perplexa 'sta minha alma comovente.

Álvaro Machado - 23:05 - 06 - 12 - 2014

simbólico céu

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ouvi a voz no céu altivo e distante.
suspendido no ar, parei...
o então porvir soou errante
e eu suspirei...

de ilusão imbuído, cada um há-de depositar
crenças, suspiros e a leve dor...
há-de, nesse céu, sem saber, acreditar
naquilo que não acreditou no amor...

mas eu ouvi a voz sentado
e a mármore esfriou-me o coração...
quando me vi, havia-me embriagado,
perplexo e absorto na solidão...

Álvaro Machado - 01:53 - 29-11-2014

gáudio de novo

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esqueci-me que chove...
afinal é-me impossível o sol só ver...
o universo é senhor e tudo move
mesmo se eu não quiser...

esqueci-me que sou de fracassar...
(chove intensamente.)
e mais chove só de eu pensar
que sol seria permanente...

esqueci-me que esquecer
é eternamente um falhar...
não me sentir é como que querer morrer,
um abismo que tendo p'ra saltar...

mas não saltes, por favor.
a vida tão precoce não pode cessar...
ilude os sentidos, o sol vai-se pôr
e a chuva, em breve, cessar...

Álvaro Machado - 01:07 - 18-11-2014

Súbitos deambulantes

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Toma de ânimo
os nossos corpos.
Ao redor, ao cimo
cinza seremos...

Toma este meu sonhar
com toda a certeza
que um dia hão-de lembrar
o porquê desta tristeza...

Toma, leva-me para a distância.
Ninguém lembre, afinal...
Foi tudo breve, numa instância
deram-me todo o mal...

Ide, ide, ó poetas da corrente!
Ide, que todos vão...
Todo o que escreveu aquilo que sente
e viveu desassossegado com tamanha solidão
sabe por que viveu tão repentinamente!...

Álvaro Machado - 21:14 - 25-10-2014

tão-só olhar

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só queria olhar... olhar e nada ser...
ter de mim um vasto mar
e um destino a desconhecer...
mas é tão grande saudade
que em mim vem desaguar...
e é uma dor de tamanha intensidade
que só me faz chorar...
o sentido de não o ter
me deixa à margem
de, na nau, em vão percorrer
essa viagem...

o porto é o bater do meu coração...
as ondas erguidas meu o é amar...
o que resta é tão-só canção
do distante navegar...
e eu só queria ter olhado,
olhado sem nunca ter existido.
Álvaro Machado - 14:38 - 12-10-2014

o dia

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um dia, queria estar lá em cima.
subir degrau a degrau
e chegar por fim a vós.
queria estender a mão
para entenderem
que todo o esforço não foi em vão.
um dia queria cuidar de todos,
brilhar intensamente
por todos os lugares...
ser alento para quem estivesse perdido,
ser esperança para quem não quisesse crer,
ser a única luz no meio de tanta escuridão...
eu parti. há muito tempo.
e a minha alma por aí se propagou
desse tempo para a eternidade.

Álvaro Machado - 23:06 - 11-10-2014

linhas tortas

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e eu desisto; rendo-me
às circunstâncias habituais da vida.
estendo minha mão, atiro meu coração,
acerco-me de atónitos desejos cruéis
para além da praia onde a maré é mágoa...

o que vai cá dentro,
que expande para o universo,
o não sei explicar...
que dói, que é como um buraco negro,
é justo. leviano, aceito-o.

e por entre todas estas vozes,
que sobressaltam minh'alma,
que se imbuem de injúrias,
peço um silêncio profundo
para o solitário poeta dos confins do mundo!

 Álvaro Machado - 19:02 - 29-09-2014

leviana dor

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um vazio torpe alastra em mim.
subo, com peso de alma,
as escadarias da indefinição
e do vácuo do meu ser...

a consciência há-de tomar
dos errantes passos dados
o obscuro sentir que dará fim
aos meus dias...

e o frio e a sensação de estar só
ecoam como se fossem toda a razão...
mas eu nunca abandonei a dor
que tão persistia em permanecer...

Álvaro Machado - 15:33 - 28-09-2014

sonho-além

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um universo muito mais além,
um rosto e um corpo inda mais distantes,
um deambulante caminho por percorrer
no submundo do destino...
um passo. um suspiro. uma indefinição.
tudo, tudo isso, além-nós, além-alma, além-coração...
porque, para além de nós, há-de existir o melhor,
o horizonte que será paraíso e não horizonte...
pudesse eu nunca ter existido aqui...
não ter sido vida, mas morte...
não ter cantado, mas calado...
não ter estrofes, mas folhas vazias...
pudesse ter-me sido futuro, pudesse ter-me fora daqui...
ébrio, cambaleante, desajustado e quem sabe se só poeira estrelar
fosse eu, e fosse feliz... e corresse universo inteiro gáudio
pelo destino ter-me levado ali, além tudo que existe!...

Álvaro Machado - 17:31 - 26-09-2014

Ad aeternum

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pós-universo e pós-subconsciente
de infinitos passos dados
poiso o coração que não sente
seus pensamentos recalcados...
tínhamos tudo. o rio ia correndo.
o indefinido ia parecendo singular...
só podíamos acreditar
que era real o que íamos vendo...
mas poder nem sempre é ser.
ter a possibilidade é ter ilusão
de viver para morrer
numa breve canção...

Álvaro Machado - 12:24 - 21-09-2014

canto louco

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do cimo das estrelas
perguntas-me se estou bem?
sim, estou. agora estou.
mas sinto-me acabado, sabes?
uma consciência desajustada
à minha alma jovem
abala-me por dentro.
fico derrubado.
entristecido.
e sabes, às vezes, sinto-me melhor,
chego a pensar que poderia ter vencido
todo o mal que nos acerca o coração
e corrói por dentro....
mas depois
- e que me perdoe o senhor -
o sentimento longínquo
toma o seu sombrio ritual...
o coração começa a doer
quando começa a chuva a cair...
o verso ergue-se, começo a escrever
e, sem parar, como tudo em minha volta,
começo a enlouquecer
que faço? que sou? que quero?
espera. não sei responder a questões tão simples...

Álvaro Machado - 21:39 - 18-09-2014

Eu consciente

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todo eu sou completo.
fogo indeterminado, mas convicto.
incoerente, mas onírico.
em dor, mas em existência.
calado, mas em erupção.
o lado sozinho é então frio.
alarga a consciência, ramifica-a
por todos os recônditos lugares sombrios...
acerca de silêncio, e por dentro o corpo grita
com uma revolta cismática!
eu sou assim.

Álvaro Machado - 01:51 - 08-09-2014

último dia

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abro os portões largos
do meu coração.
os sentimentos destroçados
apontam a direcção
do amor vão...
entro, subo neste atónito ritmo os ritmos da vida.
ando às voltas, p'ra onde ir?
quando mais penso que o meu sentir
se encaixa nesta pessoa, mais perdida
se torna o sentido da cantiga.
o tempo e o espaço
na intensidade juntou.
o tempo e o espaço
com frieza separou.
era o mesmo instante,
o mesmo semblante,
a mesma voz,
o mesmo toque...
que o destino quebrou.
cessados os portões
chave do sentido atirada em alto mar
os versos são as minhas confissões
por sempre aquilo que estou a passar...

Álvaro Machado - 12:52 - 07-09-2014

carta de refugiado

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sentir? o céu escurece.
os sentidos caem para o mar ensanguentado.

sentir-me português, dizias-me?
basta olhar em volta:
uma paisagem de terra distante
faz-nos não ter pátria,
faz-nos esquecer o espírito guerreiro,
(os tais doidos varridos caralho!)
que haviam entrado mar adentro
com naus a apodrecer e a cheirar mal...

eu vivo num esquecimento.
fui esquecido pelo tempo, o amor abandonou-me muito cedo,
o mar soltou a ira para meu desaparecimento.
que te hei-de dizer? não sei quem me escrevo, os dias incomodam-me,
as rotinas corroem-me, a vida atormenta-me...
e só me resta a morte, essa, de tão natural,
alivia-me do flagelo...

tudo o resto deixa-me deprimido.
já tudo se tornou igual, mesmo o inesperado já o havia esperado...
mesmo uma voz diferente, um rosto desconhecido,
na minha alma soam-me repetidos.
e isso, creio, para um jovem como eu,
é já como se fosse um fim precoce.

o por termo à minha vida nunca me intrigou.
tornei-me um espelho estilhaçado
com várias perspectivas...
abri o …

sim.

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se me dissesses sim
tudo unia, tudo tinha razão de ser.
se nos juntássemos, no jardim
todas as flores iriam florescer.

o vento tomaria só uma direcção.
o mar vinha sempre desaguar
no mesmo espaço onde o nosso coração
soube o que era amar.

os males, os olhos mal voltados,
os ignóbeis gestos,
sucumbiam de tão ignorados.

os deuses do olimpo o céu escureciam
e, inda assim, em nossos olhos modestos
as estrelas brilhariam...

se nós...

Álvaro Machado - 04:33 - 26-08-2014

Subconsciente

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Os sentidos na noite purificam
Até ao infinito.
Noite significa morte. Silêncio. Amor. Contradições.
Qualquer coisa que a montanha insista como impossível...

Um barco parte. Sem significado,
O horizonte espera como que pelo sol que virá não tarda.
Nem é cedo, nem é tarde.
São os contrastes do pensamento metafísico,
Da alma cortada por uma faca despida de preconceitos.

Tem calma, todos somos assim.
Deixa o silêncio entrar. Nada é de outra maneira senão nada...

Encontro no excesso
O meu refúgio para viver
Os disformes espaços que
Ora surgem ora desvanecem
No mesmo tempo...

Descansa, dorme. Solitário homem.

Álvaro Machado - 02:36 - 18.08.2014

Nós.

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O universo move.
Nós paramos.
O fogo sobe.
Nós encontramo-nos.

O destino?
Junta. Separa. Da significado.
Eterniza-nos por essa essência.

Álvaro Machado - 19h54 - 15-08-2014

silêncio do condenado

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digo-te não.
os corpos nem são
como dizíamos ser...

digo-te, numa canção,
o que nunca soube dizer
ao meu coração...

é o não que é sim,
o nunca que é para sempre
e até ao fim...

fui embora.
agora vagueio por esta estrada fora
cheia de disformes movimentos à roda...

é irónico o destino.
sermos tudo, termos tudo, fazermos tudo...
para quê?

não tarda, acabamos.
o que fomos, já não somos.
o que somos havemos de não ser.

...

e no meu não
fica o verso que te diz:
hei-de voltar.

Álvaro Machado - 14:24 - 10-08-2014

Solidão de universo

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Um espelho estilhaçado.
Um caminho com duas direcções.

Sentidos de mim reflectidos
Por entre a escuridão.

Ecos profundos que se erguem
E me assombram e me afugentam de tudo que mexe.

Quem és tu, afinal? E o silêncio logo se torna perpétuo;
nessa hora flagelo se me cobre por entre todo meu sangue...

Olhar e saber o que o olhamos
É uma dor que ultrapassa qualquer ciência.

Por isso, eu calo, eu fujo de tudo que se me cruza
No acaso da vida infortuna.

E estas perguntas, vãs como toda a alma humana,
Existem para que nós existamos de mesmo modo.

Não sendo nada, nada sendo, sendo tudo...
Querer sem saber o que querer, saber querer sem saber...

Que idiota, Deus. Que idiota que és.
És e não aclamas seres.

E, inda assim, invades-me os sonhos, tornas-me solitário,
Fazes-me poeta só por egoísmo...

Como consegues? Fizeste-o sem me perguntar.
Fizeste-o sem escrúpulos, sem sentido nenhum...

Fizeste-me não ter sentido nenhum!
Fizeste-me ser dois.

Não consegui ser. Não consegui não-ser.
Não consegui …

ilusão cósmica

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o universo é demasiado extenso
e complexo para o entendermos.
mesmo que a mente alcance as energias
vindas do submundo,
desistamos de querer o horizonte
que não nos pertence e que nos corrói.

estas noites têm sido assim,
lidas como o testamento é lido aos cristãos,
feitas de crença vã e cismo profundo...
postas em deus as nossas ânsias,
encostados para trás
a ver o que acontece depois...

e lá do cimo dos milhares de milhões de anos-luz
o sentir pulsar da energia eterna
é tomar consciência de toda esta extensão
em que vivemos e que ansiámos saber mais...
fascínio do impossível, ilusão cósmica e pervertida...

desistamos de saber mais.
não sei nem de mim.
estrela-eterna é a minha vida
universo-extenso é a minha alma...

Álvaro Machado - 18:18- 01-07-2014

à saudade

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estou só para o mundo,
para o meu mundo...
o senhor whitman e o senhor pessoa
partiram há tempo de mais...
agora o mundo só me soa
a pessoas iguais...

todos os génios abandonaram
o navio e a viagem da dor...
só as minhas saudades ficaram
em tudo que está a meu redor...

só. e as estrelas de todo universo
soam em uma frieza distante...
mas aquela luz é tão intensa e brilhante
que eu faço de mim um pequeno verso,
uma pequena voz que surge em mim
num momento bem disperso...

por que todos eles me deixaram?
inda há pouco tempo éramos um só...
conversávamos para além do infinito
e riamos do que cada um havia escrito...
por que as ondas nos separaram
e eu me sinto só?...

só de mim e só do mundo.
só. dói escrever estando assim.
até um dia, amigos, até um dia.
escrevam de volta, lembrem-se de mim,
e talvez a vida me sorria
de novo.

Álvaro Machado - 02:24 - 29-06-2014

Palavras.

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Sim. Podia ser melhor.
Podia ser aquilo que todos são.
Sim, vamos ser isso, vamos ser muito mais,
Vamos ser tudo menos nós.

Vamos falar e esquecer que falámos,
Sentir para dizer que nos magoámos,
Ver para acharem que nos preocupámos,
Ficar para saberem que não nos distanciámos.

É imenso o sol ao fim de tarde.
As ruas confundem-se, à distância não existo,
e ao calor não me sinto existir...

Mas para mim tanto me faz, viver, morrer...
Apraz a intensidade que me dás, isso basta...
Basta-me entrar na rota do desajustado, do entontecido...

E tudo isto para te dizer que não sou melhor.
Sou o que sou, sou a liberdade que deixo criar,
o sentimento que faço por adivinhar
- ruas paralelas à cavidade do meu coração,
pontes onde o declive torna ébrio o fitar,
e a passagem somos nós em volta...

isto sou eu.
resto disso é distância
e mar dessa distância.

Álvaro Machado - 14:36 - 22-06-2014

À memória!

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em memória a ti, companheiro.
muito mais importante que as palavras
são os pequenos gestos.
gestos que nos enchem o coração
da saudade de um que estará para sempre connosco.
então não são pequenos...
são gestos largos, nobres, que significam tudo.

as vozes entoaram e prosseguiram a sua rota natural
acompanhadas pelas guitarras que soaram tristeza nas notas...
capa negra, assim, como sabemos, homenageamos.
e é com a capa negra que sempre diremos:
nós, contigo, sempre estamos.

Álvaro Machado - 20-06-2014

sem desfecho

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para mim estar nessa multidão
é como se não existisse.
cada passo e cada suspiro meu
é uma tremenda ilusão.
é cair de rastos no chão
sem me conseguir levantar mais.

são as iluminações e os barulhos,
eles confundem-me;
e o corpo e a mente perdem-se
horas a fio, sem nunca mais se encontrarem...

caminho, porém. lado a lado com a lua,
eu caminho sozinho...
p'ra onde? p'ra lado nenhum...
lado nenhum, pois; então é tudo um vácuo
e eu sentir não vos importa
coisa alguma...

é mais um que na sombra se mexe
e na sombra se perde
até à eternidade do ser.

é só mais um com fantasmas e receios,
com cadafalsos e mentiras entre eles...

que me importa viver?
viver assim é não viver assim.

pouca coisa resta, porque eu por dentro morro
em um requiem de obscuridade ébria...

estarmos juntos no amanhecer?
mas que amanhecer nos há-de juntar
se nós fomos feitos para estar sós,
longínquos, sem sabermos da existência um do outro,
ainda que saibamos perfeitamente que existimos?

juntos é uma história que…

O eco que vai por Coimbra

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Ecoa no Mondego desta cidade
o som de outros tempos.
Oiçam, bem de perto, a intemporalidade
que vai na corrente
e que são versos.

(Ecoa neste rio o meu coração...)
Eu que, isolado, sem saber tomar
uma direcção,
pergunto aos deuses do universo
se algum dia me hão-de recordar
como eu os recordo...

Não sei, porque me dói muito querer saber.
Dou um breve suspiro, fito as indefinições do ar,
e penso para mim: quero é morrer.
Por que hei-de outro caminho querer,
se por mim ninguém vai suspirar?

Mas é deste rio que me vem a veia de artista
- incerto, desconhecido, embriagado pela sublime paisagem.
E continuei pensando: nem que isto me leve ao suicídio, nem que da minha vida desista,
o que eu quero é saborear esta viagem
aos tempos passados.

Álvaro Machado - 20:12 - 10-06-2014

Total perda

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Perdi tudo...
Mesmo esse nada se esvaiu de mim...
Tornado escombros, vagabundo...
Aqui gelo; e que sou?

Em multidões escondo-me,
mas por dentro morro.
Toda a crença é cavar mais fundo
na minha cave de inércia...

Perdi o controlo...
Tornei-me num deus frio, não sabia...
E quando cumprimentei o barbeiro
ao pensar nisto, ele sorria...

Pois agora solto um breve suspiro
ainda antes de partir...
Se soubessem o fardo que carrego e, inda assim, nunca o tiro...
Só quero apagar o cigarro e sorrir...

Mas agora é tempo perdido
- o que perdi, é fugido,
e o que tenho é efémero
para voltar a viver.

Álvaro Machado - 20:38 - 30-05-2014

pranto recalcado

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silêncio: é noite, chove e eu não existo.
na fé oiço, calo e desisto.
estou só, sofro, e é assim que eu quero estar.
cubro-me com o vácuo, fito o mar
e penso: quero-me ir, quero findar.

Orionte - 00:10 - 28-05-2014

questionar o inquestionável.

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deus?
sou ateu.
só creio em deus
quando me sinto a morrer.
e só, também.

sou mau por isso?
não creio nele.
o olhar de soslaio é quanto baste
- as estrelas vigiam-nos
enquanto dormimos...

sei bem quem sou.
não façam barulho...
já vos disse: sei quem sou. e calem-se, calem-se já.
que agora volto-me para o céu
e fico destroçado...

venha a morte.
aí, e só aí, creio em deus.
porém, antes disso,
nunca me acerquei de velas
e preces destoadas do real.

e morto, morto agora mesmo,
vos digo... digo...
esperem... não digo nada...
o maior segredo do mundo
é mesmo esse: a indefinição.

fim, começo?
deus sabe.

Álvaro Machado - 22:29 - 19-05-2014

nau inocente

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ontem fui.
hoje é que não sou.
ontem balbuciei o que restava de mim.
hoje sou mudo.

aquele barqueiro em uma nau,
indo inocente, diz que procura a índia.
não... ele continua em busca desse mar paradisíaco
onde não precisa de pensar.

hoje é ele.
ontem fui eu. fui eu quem passou
e por esse mar naufragou...

vai-te. foge desta onda.
que ela há-de levar-te
e nunca mais entregar-te.

Álvaro Machado - 21:47 - 18-05-2014

Desconexão

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Desta complexa e entontecida noite,
Sobra a mão morta
Que transparece o estado atónito
Do que ecoa baço...

E, em redor, um impulso
Agiganta o desejo absurdo
Para que a razão entre e responda
Quem sou eu.

(Um doido. Um doido sem nome próprio e sem ninguém para o compreender)
Talvez seja isso, talvez.
Afinal, qual é o desfecho depois de sofrer numa noite assim?

Álvaro Machado - 01:28 - 18-05-2014

noite.

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a minha vida é breve
como o vento e vazia como o silêncio do vento.
eu disse-te isso. e tudo passou...
mas a noite passada
trouxe-me o teu flamejante olhar, a doce e inocente voz,
e por um breve instante pude ter-te
como deus tem o universo.

eu devia ficar calado. eu sei.
mas eu nasci para dizer tudo o que embarca o coração,
todas essas sensações que ninguém entende...
é o estar sentado sobre o enternecido luar
e suspirar afincadamente...
sabes, o normal. o normal ciclo de alma errante
- o não ter nada nem ninguém, as raízes espalhadas por aí fora
a sofrer intoleravelmente.

breve é tudo: eu, tu, todos...
mas permite-me dizer que nesse breve instante
tenho a sensação de te ver p'ra sempre.

Álvaro Machado - 18:13 - 16-05-2014

desfragmento

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se me dizem para te amar
eu não amo.
se me dizem para te esquecer
eu não esqueço.
se me dizem, se me não dizem,
eu não quero saber.

este sou eu. uma náusea de consciência.
uma mágoa vendida à sorte.
o desfragmento, o estúpido, o artista de nada...
o não ter sentido, tendo-o.
o vácuo de todo mundo num rasgo de génio,
o cadafalso permanente e a morte à vista...

o verso disforme.
nenhum ser merece escrevê-lo.
tanto tormento. tanto, tanto...
disseram-me para te amar e eu amei,
disseram-me para te esquecer e eu esqueci...
morri. morri porque nunca vivi.
ébrio suspiro da corrente...
meu amor.

Álvaro Machado - 17h47 - 14-05-2014

Teoria

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O que é morrer?
É o que eu sinto.
Lentamente, sinto-me desvanecer
Com a embriaguez do absinto.

O que é morrer, senão morrer?
Nada. É alguém que já existiu.
Que não existe e se esqueceu que se viu.
É tudo de mim a desaparecer...

É quando está muito frio, é quando nós desaparecemos
E arde no fundo do mar a nossa imagem...
É quando é calma e silenciosa a viagem
Onde nós já morremos.

A vida é assim: sinistra, complexa.
Num momento tudo se move
E, de um momento para o outro, extingue-se
Como se nada fosse...

Álvaro Machado - 22:24 - 02-05-2014

Paragem.

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I.

É só uma sensação.
Um pequeno desconforto, disse eu,
Olhando em volta
Para o sentido que me move
Inerte, frágil, ridículo…

E paro. Não quero continuar.
Deixo que tudo desmorone!
Não tenho mesmo vontade nenhuma
De me erguer p’ra poder viver.
Da vida o que posso esperar?

Ilusão errática,
Agonizante, cismática…
E não mais que isso.
Um eco profundo que eu invoco
Só porque não valho nada…

II.

Para além da vida,
Este meu eu que me corroí por dentro
Leva-me ao suicídio da alma
Pela súbita inveja
De uma pomba voar…

Quão frio me sou quando rodo numa náusea de suposições
O que esta pomba faz sem sentir, e muito menos sem pensar.
Feliz porque Deus é egoísta e a deixa ser feliz
Para nos escarnir.

Olhámo-la com uma inquieta e estranha curiosidade.
Olhámo-la porque vemos nela o que não vemos em nós:
Vemos-lhe liberdade, meus caros. Liberdade!
Liberdade e inocência, pura inocência
Que a faz voar muito mais além…

Álvaro Machado - 23:26 - 01-05-2014

Prelude

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Aceito-o. Não posso encobrir que nasci para fracassar.
Nasci para estar somente na margem
Que vê tudo e todos a passar
Sem lhes poder fazer paragem…

Se ao lado deles, quem sabe, pudesse ser menos doloroso
O sentir presente todo o vácuo vasto do universo…
Pudesse ao menos o meu eu estar menos disperso
Por um brilhante rasgo de morfina deleitoso…

Inda é noite, já o estou a aceitar.
Aceitar que, se mesmo agora a minha vida fosse deixar,
Ninguém ia dar pela minha falta.

Só – talvez, talvez pensando bem – esta noite de luar
Há-de conseguir entender o que me está a atormentar.
Por cima de mim, só a lua está alta…

Álvaro Machado - 23:40 - 26.04.2014

Mito da existência

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Sou eu, meu amor. Sou eu.
Sou só eu e o quarto abandonado
Que foi de um só pensamento que se esqueceu
Quando mais devia ser relembrado.

Nunca tenho nada onde me agarrar
Senão à chuva e ao vento e às lembranças que vêm do luar.
De resto, que fora de mim, que é de mim?
Não faz nenhum sentido p’ra onde vou, nem de onde vim…

Se eu pudesse mostrar-te tudo o que estou a sentir…
O que grito por dentro com tanta indefinição…
Tudo o que olho no acaso e que consigo pressentir
Com uma tão grande e tão inútil noção…

Faz-se do obscuro do que move a corrente da alma
Uma clara névoa que nunca hei-de entender…
E, sem nunca saber o que estou a ver,
Virá a onda de o mar p’ra eu partir…

«Sou eu, sou eu!»
Disse alguém que do mar veio
E pelo mar também desapareceu.

Álvaro Machado - 01:45 - 25-04-2014

Antes e após

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Depois do poente ninguém está a navegar.
Depois do poente só estou eu,
É noite, e um silêncio pesado prevaleceu
Sobre o inócuo luar.

Antes do poente, tudo era justo e real
- Cada criança, cada som que por fim nos cruzava com razão de ser…
Antes da tragédia, depois da noite havia de vir o alvorecer
E os copos de vinho e as piruetas faziam disto um festival…

(Quando nos juntávamos!...)
Há-de ir longínqua, esta saudade,
Pois tudo passa, e nós lá também vamos,
Com a idade.

Será fim, será começo,
Eu o não sei…
Levo só comigo aquilo que tanto cantei
Deste pós-poente que inda nem conheço…~

Álvaro Machado - 00:36 - 21-04-2014

Modernos.

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décimo primeiro canto.
Consoante o modernismo
a saudade.
A saudade dos gregos e dos romanos
dos pensamentos megalómanos,
e no entanto realizáveis;
Dos impérios vastos de Temudjin e César
que, vendo homens, viam conquistas
- um que sozinho comandava milhares.

Modernismo, o desajustado
e traiçoeiro.
Como poderá evoluir o homem
se os arquivos não se procuram
nem a história se pretende saber?
Diremos que Aristóteles nem existiu
e que os livros metafísicos são contos de fadas...
Que disparate, Da Vinci, Galileu, que horror.
Ser moderno é ser só assim.

Os que morreram, morreram; já lá vão...
Que interessa se os perseguiram e torturaram
para que hoje nós andássemos aqui?
Nada...
Age-se com indiferença, até com arrogância,
se sequer nos abstraímos a pensar nisso.
Que interessa quantos morreram a caminho da Índia
para que se unificasse o império?
Dos poucos nomes exaltados, que eu conheça,
só Vasco da Gama, que até vem nos descobrimentos,
mas onde os largos milhares de sacrificados
nem tampouc…

Consciência ampla

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Vou estar aqui sentado
Até que tudo seja vão e inútil.
Não me interessa.
Não tenho medo nenhum de nada.
Nem mesmo do fim.
Ai, sei lá, que de tanta dor que eu trago
Acho que já não não vale a pena...
Estarei, então, aqui
- No meio das coisas, mas longe do meio;
Só sentado, no relento da saudade,
Para lá do mundo, para lá de tudo,
Entre a calma e a plenitude
Acima de nós.
E sentado, do fundo amargo e doloroso da vida,
Paro: afinal não existo...

Álvaro Machado - 22:30 - 15-04-2014

Álvaro Machado - De Repente (Rádio Marcoense)

Quando me sento a pensar no sentido de tudo que está ao meu redor, vejo que a vida é feita por um grande vácuo e que o tédio que me acerca é mesmo isso: um grande tédio em tudo.

Álvaro Machado - Conversa ao leitor (Rádio Marcoense)

Uma criação diferente, o que torna o poema também ele diferente e muito liberto das regras habituais que normalmente estão inerentes a ele. O leitor que se sente e oiça aquilo que lhe digo, pois muito aprenderá.

Fernando Pessoa - Leve, breve, suave (Rádio Marcoense)

O canto desta ave era "breve, leve, suave" e portanto daria uma prazer enorme só o facto dele existir. No entanto, a consciência de Fernando Pessoa e o "escutar" torna esse deleite numa mágoa, numa dor de pensar destrutiva.

Álvaro Machado - Universo que espera (Rádio Marcoense)

Sem medo nenhum do que os outros podem pensar ou achar de mim. Sou eu mesmo. Maluco, desvairado, o que for. Mas sou-o. E sou feliz, convicto dos meus sonhos e apreciador da literatura. Isso é quanto baste para mim.

Cave do tempo

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Estou na cave do universo
E é tão pesada a consciência de tudo o que existe...
A alma vagueia aos prantos pela rua da cidade esquecida
Onde as pessoas fazem-me ter consciência
Que a morte vem, vem lenta, silenciosa, discreta
E que, quando vier, virá impiedosa.
Levar-nos-á sem dar-mos o nosso último adeus.
Parece que nem existimos...
Que me resta? Esperar?
E esperar o quê?
Será que só irei sentir uma rajada de vento
E depois caie redondo no chão?
Sei lá eu...
O que eu sei é que o tempo pouco é.
Às vezes andamos pelos atalhos do quotidiano
A fugir ao que realmente importa, que é abraçar as pessoas que amamos,
Poder dizer todos os dias o quão especiais elas são para nós.
Mas o tempo passa. Quer digamos ou não, ele perde-se, nós perdemo-lo...
Não volta. Só passou. Era esse o seu sentido, o de passar sem ficar...
Agora que eu queria dizer o quanto amo o mundo, tarda o dia, tarda a alma.
Passei horas e horas a tentar compreender o incompreensível
Para poder afirmar que nada é exacto nem qu…

Jorge de Sena - Uma pequenina luz bruxuleante

Não obstante o que se passa no mundo, esta pequena luz sempre brilha, sempre existe na sua maneira de ser, independente de tudo o que exista, de tudo o que lhe é alheio.
Brilha. Brilha sempre. É única. E não poderia ter-me dado mais prazer a recitar essa pequena luz, agradeço ao Jorge de Sena por esta obra de arte.

Fernando Pessoa - Quem escreverá a história

"Quem escreverá a história do que poderia ter sido o irreparável do meu passado?".
A mensagem é muito fácil: e se tivéssemos escolhido outro caminho ao invés daquele que escolhemos? Se tivéssemos dito não ao invés do sim? O que seríamos nós hoje? Outro hoje?

Sophia de Mello Breyner Andresen - Esta Gente (Rádio Marcoense)

Actual. Todos nós podemos, e devemos, rever-nos neste poema. Muitas vezes calcam-nos, deixam-nos à fome, com más condições de vida e, por isso mesmo, está na hora de recomeçar a busca:
"De um país liberto
De uma vida limpa 
E de um tempo justo"

Século fúnebre

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Doze cantos, a começar do décimo segundo.
Da praia lusitana tantas vezes invocada
Eu caminho agora para o fim.
Foi a língua que se perdeu
E a pátria está naufragada
- Portugal hoje é assim.

Então hoje eu volto às origens
De erguer em meus cantos
Novos mestres para as novas viagens,
Novas Tágides para novos encantos,
Deuses para a crença não findar.

Doze cantos de solidão,
De amor, de tragédia e de sacrifício.
Heróis que inda crêem em el-rei D.Sebastião
Aparecem encostados ao ofício
Dos que inda matam por matar.

Louvado seja o senhor.
Em grande, louvemos.
Senão os imortais no tempo
Acercam-nos e, depois de impingirem a dor,
Nós morremos.

Ó canto meu, nada sei...
Portugal já não tem a praia lusitana no alto do luar
Nem a esfinge nos há-de voltar a cruzar.
Resta-me apenas o que criei
- Doze cantos sem os não pensar.

Álvaro Machado- 13:43 - 29-03-2014

Ciclo.

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Estou no fim dos meus dias.
É tão claro como a luz de todas as manhãs
E tão tenebroso como as sombras da noite
- Tudo me vem atravessar nestas últimas horas.
Raio de consciência infame, coisas com que não consigo lidar
Coisas essas tão simples como a minha vida,
Como o levantar da cama, alimentar-me, respirar, viver o dia,
chegar a casa, deitar-me, dormir ou sonhar acordado...
Coisas perfeitamente normais que afinal todos fazemos.
Normais? Sim, normais. Qualquer um de nós as faz inconscientemente.
Só que eu nunca julguei que me fosse pesar tanto os remorsos
como têm pesado, nunca achei que a consciência me assaltasse
desta forma descabida, louca, cismática, como tem assaltado...
Achei: ah, pelo contrário, irei sempre fazer o que quiser,
eu não preciso de ninguém, não preciso de vós, nada!
Se te queres ir embora, vai-te, vai-te e não voltes nunca mais.
Arrepender-te-ás, pois eu não preciso de ti.
Disse mesmo isto. Disse isto e, pior do que isso, convenci-me disto.
Achei que conseguia …

Cego poeta

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Não vejo nada do que vejo.
Cansa-me ver.
Eles continuam, os consigo pressentir
Mas não quero olhar.
Deixá-los nesta distância
Que nos faz tão diferentes...

Nada vejo do que estou a ver.
Sinto-me um cego para o que passa.
Só queria poder esquecer
Tanta e tanta desgraça
Que me afronta todos os dias
Da minha consciência...

Escreveu o meu poeta da cidade,
Não vejo nada do que vejo.´
Escreve e sente em prantos
A dor que dá ao viver
Quando o homem vê no pequeno
O muito fel do mundo...

Álvaro Machado - 13:11 - 28-03-2014

É eterno poeta.

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No cume da montanha
Hás-de estar esquecida.
Tão débil como uma folha
No fundo da estrada:
Vista, esquecida, pisada…

Tão ténue que cada ventania
Levará um pedaço a mais de ti.
E vendo bem os debaixo
Sabes, súbita miragem,
Que estás só…

Não vale ter a ilusão
De te ergueres.
Para quê crer?

Ergues, logo cais.
E entras numa espiral
Onde sempre hás-de cair…

Então para quê o continuar
A erguer, ó débil, ténue, triste
Sensação que por mim escorre
Como esse cume da montanha?

Álvaro Machado - 13:17 - 23-03-2014

José Régio - Sabedoria (Rádio Marcoense)

Ao incansável poeta vilacondense que mostrou aos portugueses e ao mundo uma poesia transcendente, impregnada de intensidade. Não só pelo Cântico Negro, mas pela mensagem forte que este poema nos transmite. Fantástico.

William Ernest Henley - Invictus (Rádio Marcoense)

Este poema marca-nos de uma maneira especial. Com uma mensagem muito forte, faz-nos manter erguidos, enfrentar os obstáculos, ser-mos os "capitães da nossa alma".
E foi assim que a figura incontornável de Nelson Mandela manteve a força necessária e não ceder ao desespero que qualquer um teria por estar preso durante 27 anos.

Universo que espera

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Sei que tudo está à minha espera.
Que o universo está no infinito
Da minha voz e dos meus sonhos
E vai adiante, a multiplicar-se
O sentimento que é grande
Como um Deus.

Por mim a força do mar
E a luz do astro-rei
Se concentram,
Brotam em força transcendente
Pronta a derrotar o conformismo
Que sustem o mundo.

Irei escrever os versos sublimes
Que o meu coração tanto reclama.
Tudo me espera. O mundo inteiro!
Enchem-se as praças de sensações,
Aves que pelo céu voam alegres,
Ruídos dos carros deste século
Sem chama.

Mas eu subo a esta mesa de madeira
E digo-vos que este sou eu,
Sem medo nenhum da verdade;
E sei ter a consciência que a morte é um desfecho
Do mais natural pensamento concebido por Deus.
Aqui em cima sou livre. Tenho a alma inavegável.
E os sonhos vão conquistar o mundo.
Ele espera por mim!

Álvaro Machado - 23:19 - 18-03-2014

Conversa ao leitor

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entra. convido-te a entrar.
este é o poema que te aproxima
talvez de mim, talvez de tudo
aquilo que eu sou.

tem pouco de diferente,
muito de comum.
um caminho atónito
de quem não sabe porque sente.

à porta te espera o meu primeiro eu
guardião de um templo
creio ser tanto meu como teu

divino, na modéstia de um vadio,
é um snobismo.

mas, dizia-te, entra.
percebes agora?
em tudo, nada.
do nada que eu sou
este poema
está criado.

pouco ou nada vale.
ninguém o lê.
não é digno de um livro.
porque é rápido e sério
e não se vende corações,
sentimentos...
vende-se arte, dizem,
da história que tem amor e família
que faça sofrer e por fim rir
desleixados leitores.

percebes agora?
este poema é uma conversa ambígua
que nem forma se lhe dou
E se agora quiser
Começo a erguer as maiúsculas
Que é de mim? Que quero eu com isto, afinal?
(minúscula.) mostrar que a liberdade é mal vista
aos que fazem por atirar areia
que aqueles do amor são contemporâneos autores.

quê? não são coisíssima nenhuma.
provavel…

sensações despropositadas

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o pensar é uma enorme aflição
quando o sol preenche dias vagos
e por dentro, bem por dentro,
uma tempestade se ergue
para tudo levar.

só isso é quanto baste
para me sentir a sufocar
(eu não pertenço a estes grupos)
um aperto no coração
que de mim se alenta.

quero, como tu, mestre calmo, certo,
ter a certeza dos teus versos.
leviano sentir, barca ao relento,
que vê e ouve e o resto
tem pouca importância.

Álvaro Machado - 19:00 - 15-03-2014

Cesário Verde - Cinismos (Rádio Marcoense)

Não poderia haver melhor escolha para fechar esta primeira semana na rádio do que a escolha do grande poeta, Cesário Verde. Dos que mais intensificou o meu gosto pela literatura, dos que, indo a deambular pelas ruas da cidade, mais conseguiu captar de cada coisa que observava. Que grande poeta!

Álvaro Machado - Questão Simbólica (Rádio Marcoense)

Um dia de rádio especial por dois motivos: porque li um poema da minha autoria - coisa rara, entenda-se - e porque dediquei-o a uma pessoa que merece vivamente: ao Coutinho Ribeiro.

Desejo concreto

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como o mestre, Alberto Caeiro.
Numa longa espera, que nunca será vinda,
Levei-me até a esta rocha, a esta paisagem do ser
Chamada pensamento sublime.
E agora dou por mim aqui - como? não sei...

Dizem que isto é o paraíso, o jardim do éden
É o vento e o sol que agora sinto que me fazem pensar
Leve como esta brisa que quase fala, que fala mesmo!
E esses tantos caminhos não são senão o abismo!

Aqui esqueço. Sou-me na essência dos versos,
Invoco Caeiro e deixo fluir com naturalidade
Cada palavra que acompanha estes raios solares,
Esta erva verde, este escorrer de água do rio...

E peço no fundo de mim: «por favor, deixa-me ficar aqui.
Não posso querer mais do que aquilo que aqui me dás:
Liberdade, honestidade, plenitude... das-me a verdade das verdades.
Por favor, daqui não quero sair.»

Mas perdeu-se-me o desejo, esvaiu-se-me o sangue, gelou-se-me o coração...
E veio logo atrás, a perseguir-me, o som dos carros, as vozes entontecidas, a realidade maldita
Que me deixa fechado em casa às esc…

Eugénio de Andrade - O Sorriso (Rádio Marcoense)

Esta quarta-feira a rubrica remeto-nos para a felicidade, para o poder que um simples gesto pode ter, neste caso o poeta Eugénio de Andrade eleva o sorriso como um gesto nobre, único, que nos marcá enquanto leitores.

Silenciosa. Mas dói.

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Uma dor. Silenciosa. É uma dor silenciosa.
Esta que se me atravessa.
Que toca nos sentidos, rasga o coração,
Faz ferida, deixa marcas, destroça...
Como é dolorosa não tem pressa
- E de tão dolorosa que é
Quando vem, não tem remorsos,
Não tem perdão.

Meus olhos põem no céu distante
A esperança que nos deuses se invoca,
No luar que a alma tem como única razão,
Dessa noite solitária que vai chegando
E que, talvez, julgo eu, me leva p'ra um lugar
Ao qual tradicionalmente chamamos
Pura reminiscência:
Existo, então?

 Álvaro Machado - 19:53 - 12-03-2014