Desfecho final


Há uma tempestade fortíssima a Sul.
Do meu quarto, pressinto-a e sei qual será o seu rumo.
Virá em minha direcção, levará tudo à sua frente
- Serão arrastados sentimentos para fora da região,
Perder-se-ão pelo infinito do universo, deixará de sentir o coração…

Encerro as janelas do quarto e cerro a cortina
Para me fazer esquecer que algo trágico está próximo.
As nuvens, ainda antes de eu desviar os olhos do horizonte,
Escureceram de uma cor mais sombria do que o sombrio.
E lembro-me que ficara numa inconsolável tristeza…

Levou-me tudo. Tudo o que tinha me foi levado.
E não tive força para reagir; eram as forças do destino a vencerem-me.
Deus não existe. Porque, se existisse, havia aparecido naquele instante,
Impedia que o amor fosse quebrado por uma tempestade,
Impedia que a minha vida, a partir desse momento, passasse a não significar nada.

E agora não há motivo nenhum no mundo inteiro que me faça crer.
Não acredito em nada – senão na morte, senão que todos somos a mesma coisa,
Que todos, independentemente da duração, acabaremos e o corpo esfriará, por dentro e por fora.
Tendo apenas como rota diferente crer nos diálogos de Platão
E na sua convicta crença na reencarnação.

Chove mais. A casa está em destroços e o meu coração é um ermo sem razão de viver…
Não importa, agora, o quanto sofra daqui p’ra frente. Mais do que sofri já não é concebível ao sentimento humano!
E as ondas do mar crescem e vêm para mim, enormes ondas e um fluxo de luz transcendente dizem-me que chegou a hora…
E é isto a minha história. Foi isto que, durante tanto tempo, no meu coração fechei.

Álvaro Machado – 21:57 – 15-12-2013

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