Espelho real




Saído da livraria, que tanto me tem feito pensar,
Eu encontro ao acaso um espelho em que fico a olhar
Como se nele transparece-se toda a verdade que há em mim
E se apenas ele soube-se verdadeiramente quem sou...

Na realidade, pressinto que apenas este vidro incolor
Pode saber realmente quem sou, e que só ele vê esta dor
De que mais nenhum espelho pode transparecer.
Por mais que julguem nunca me irão conhecer.

Consigo fintar todos os olhares, todas as supostas ideias de mim,
Consigo ser tal qual como eles e levar uma vida também assim
- Que não busca motivos nem razões p'ra nada, e posso eu ser
Como todos, porque todos nisso vão crer.

E é quase irónico pensar porque nunca vemos o nosso rosto
A não ser quando nos contemplamos num espelho qualquer;
Dá a impressão de aquele não sermos por variados motivos.
Ocasionalmente encontramo-nos connosco,

Ocasionalmente encontro-me comigo e sinto indisposição de me ver.
Acho ridículo as formas controversas do meu rosto e o velhaco olhar
Dos outros que me vêem e cruzam comigo todos os dias.

Ainda que de um rapaz se trate, sou ridículo. Em mim não sei crer.
E toda a música me precipita e o som quer-me empurrar
Abaixo deste cadafalso onde passos os meus dias.

Álvaro Machado – 20:30 - 30-01-2013

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Da outra margem!

de folha em folha, tudo cai vão

Jorge de Sena - Uma pequenina luz bruxuleante