Atónita Ode


Vem sobre mim, canção e mestria escutada nas igrejas,
Vem, vai e retorna novamente, ó composição composta
Por notas dos píncaros mais altos que tu própria harpejas
Ó melodia perigosa que tanto de mim gosta!

Vem por cima das coisas e calca-me e esmaga-me e destrona-me
Pois sou eu, ou tu, quem sabe? Se somos ou se não seremos?
Longe da minha alma, perto do meu coração, aproxima-te e mostra-me,
Ó vaga música complexa cheia de ermos!

Que frenética forma alucinante de ver, ansiar, sentir e não sei mais
Ou será mais para além de saber que é mais e atravessa o Cais
Que este pensamento inquieto de mim, e só de mim,
Ou será inquietação tanta sem fim?

Invoco-te, melodia sangrenta, composição lúgubre, ode sem poesia…
Tu és o que não serás e nunca foste o que queres ser…
Chega-te ao ouvido. Enche óperas do que queres parecer…
Tu, ode sem magia, és o que há de maior hipocrisia!

E que revolta, e que corpo lasso, e que alma descontrolada!
Que serei eu também? Sou um fracasso eterno ao relento…
E porque escrevo e crítico e sou prolixo num fingimento,
Tal esse que é fim de canção acabada…

Vem, volta, vai e retorna neste vício d’um ciclo vicioso.
Desiste, porém, do que é amar incondicionalmente.
Sabes porque te digo isto, ó doida varrida! Sabes precisamente,
Isto e aquilo e aqueloutro d’um ciclo tenebroso.
Sabes isto, sabes. Sabes tanta coisa. De que vale irradiar?
Continua a perigosa melodia que me mata lentamente
E ao som do último violino, ele continua a vaguear.

Vagueio de corpo e alma. Deixo a sociedade atónita.
Oiço píncaros no cimo Evereste; Fito sons imersos Mar;
Perplexo vento fresco… Abertura radiosa no céu…
Ó princesa que manjes violoncelo, tira essa véu,
Chega junto de mim, que sou quem te fita,
E vem sem retorno para me amar…

Álvaro Machado – 21:27 – 15-09-2012

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